As sementes da decadência chinesa
Nenhuma potência deve tanto à ordem que visa combater como a China deve ao Ocidente. O sistema chinês assenta nesta contradição: o ethos anti-hegemónico que o define, e que faz parte da sua própria razão de ser, constituiu-se contra o sistema internacional que foi, ao mesmo tempo, a condição indispensável da sua ascensão. O Partido Comunista Chinês tende a definir-se pelo antagonismo ao domínio ocidental sobre a economia mundial. E, no entanto, foi esse mesmo sistema, aberto e estável, que permitiu ao Estado chinês ascender ao papel de grande potência mundial. Em Pequim reivindica-se essa ascensão como prova da sua singularidade enquanto, convenientemente, se esquece que ela se deu no seio da ordem que hoje quer desfazer.
A abertura de Deng Xiaoping, no final da década de 1970, e a integração da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, funcionaram como o verdadeiro acelerador dessa ascensão. Foram saudadas no Ocidente como o ponto culminante da estratégia liberal da “mudança pelo comércio” ou Wandel durch Handel que ligava diretamente a prosperidade e abertura económica à liberalização política, promovendo uma maior integração comercial entre países como o precursor necessário para uma pacificação entre as potências estabelecidas e a que agora emergia. O que sucedeu, no entanto, foi quase o inverso do prometido. A China serviu-se do acesso às regras do mercado global para as reconfigurar a seu favor, casando a retórica da globalização com uma arquitetura económica firmemente controlada pelo Partido-Estado. Neste processo, converteu-se, em pouco mais de três décadas, de fábrica do mundo numa plataforma de controlo dos fluxos produtivos que sustentam o sistema de globalização ocidental.
Subjacente a esta estratégia está uma convicção que circula há muito nos círculos de poder de Pequim. Wang Huning, hoje um dos conselheiros mais próximos de Xi Jinping e um dos principais artífices ideológicos do regime, escreveu, ainda em 1991, no seguimento de uma viagem aos Estados Unidos, que o sistema americano continha em si mesmo as sementes da sua própria decadência, e que o individualismo e a erosão de um sentido partilhado iriam corroer a coesão de que dependia a sua supremacia.
A tese, que fez de Wang uma espécie de eminência parda de três gerações de liderança chinesa, exprime uma visão determinista da história na qual o declínio americano surge inscrito na sua própria natureza e dispensa, por isso, qualquer aceleração externa. É esta convicção que explica boa parte da aparente passividade chinesa perante Washington, uma vez que, para quem interpreta a história como um processo que caminha por si próprio para um fim já estabelecido, pouco sentido faz precipitar aquilo que, entregue às suas contradições, se cumpre sozinho. Ademais, a prudência aconselha ainda a não provocar um adversário que, mesmo em declínio, permanece perigoso, e talvez tão mais perigoso quanto........
