Porquê as Fragatas FREMM EVO
A decisão portuguesa de avançar, através de um acordo Estado a Estado com a Itália, para três fragatas de nova geração deve ser lida como uma decisão sobre o lugar de Portugal no Atlântico. O anúncio oficial prevê entregas entre 2029 e 2030, sustentação, transferência de tecnologia e condições de exploração operacional durante um ciclo de vida não inferior a trinta anos.[1]
É um horizonte que atravessará várias gerações de militares, governos, ameaças, munições e software. Por isso, escolher uma fragata não é comprar uma conjunto de capacidades em 2026: é contratar uma arquitetura de combate, uma cadeia logística, uma comunidade industrial e uma trajetória de modernização até à década de 2060.
Importa também fixar desde já uma cautela metodológica. O comunicado português confirma três navios e o quadro SAFE, mas não divulga uma ficha técnica completa da configuração nacional. O SAFE (Security Action for Europe) é um instrumento financeiro da União Europeia, criado pelo Regulamento (UE) 2025/1106, destinado a reforçar a prontidão militar europeia e a Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia através do financiamento de aquisições conjuntas. Disponibiliza até 150 mil milhões de euros sob a forma de empréstimos de longo prazo, concedidos aos Estados-Membros em condições competitivas, abrangendo áreas como munições, defesa aérea e antimíssil, capacidades navais de superfície e submarinas, drones, guerra eletrónica, inteligência artificial e sistemas C4ISTAR. No âmbito deste instrumento, foi disponibilizado a Portugal um empréstimo máximo de aproximadamente 5,84 mil milhões de euros, do qual o programa de aquisição das três fragatas constitui apenas uma parcela, cerca de 3,2 mil milhões de euros, não devendo este montante ser confundido com o preço dos navios.
Consequentemente, a verba global de 5,8 mil milhões de euros citadas publicamente respeita ao conjunto dos investimentos SAFE, e não pode ser tratada como preço isolado das fragatas.[2] A sua aquisição representa um investimento global da ordem dos €4 mil milhões. Embora o preço anunciado de cada plataforma seja de cerca de €960 milhões, quando se consideram armamento, munições, sustentação ao longo do ciclo de vida, infraestruturas, capacitação industrial do Arsenal do Alfeite, doca, equipamentos de teste e sistemas de treino, o esforço financeiro equivalente ascende a aproximadamente €1,34 mil milhões por navioAo longo deste artigo, FREMM EVO[3] designa, portanto, a referência italiana publicamente conhecida; os sistemas concretos dos navios portugueses só deverão ser apresentados como definitivos quando forem confirmados pelas autoridades nacionais.
As Soluções Consideradas e os Padrões de Comparação
A informação oficial portuguesa disponível não publicou uma lista completa dos concorrentes nem a grelha de avaliação. Contudo, informação especializada divulgada após a decisão refere que a Marinha avaliou, além da FREMM EVO, a F110[4] da Navantia, a FDI[5] da Naval Group e a ASWF[6] da Damen.[7] O Diário de Notícias identificou igualmente a F110 entre as plataformas europeias de nível comparável à FREMM EVO. Esta distinção é importante: a Type 26 britânica da BAE Systems e a F125 alemã da Arbeitsgemeinschaft são muito úteis como padrões técnicos de comparação, mas não existe, nas fontes públicas consultadas, prova equivalente de que tenham integrado a mesma avaliação formal portuguesa.
Assim, a análise que se segue separa as soluções que foram publicamente associadas à avaliação portuguesa – FREMM EVO, F110, FDI e ASWF – das outras duas referências, no domínio ASW oceânico, e na presença prolongada e elevada disponibilidade que ajudam a aferir escolhas de desenho.
Comparação qualitativa
Contudo, a opção britânica enfrentava uma limitação financeira e industrial significativa. Embora o Reino Unido pudesse participar em aquisições conjuntas por força da sua Parceria de Segurança e Defesa com a União Europeia, a aquisição de fragatas Type 26 construídas predominantemente pela indústria britânica não era automaticamente elegível para financiamento através do SAFE. Essa possibilidade dependia da conclusão de um acordo específico entre a União Europeia e o Reino Unido, nos termos do artigo 17.º do Regulamento SAFE, ou de uma solução industrial europeizada que respeitasse as regras de origem, segundo as quais os componentes provenientes de países terceiros não abrangidos não poderiam exceder 35% do custo estimado do produto final.
A F125[9] alemã foi pensada para presença prolongada, estabilização e elevada disponibilidade, mas não para ser o instrumento europeu de referência em ASW de alta intensidade. [10]/[11] A FREMM oferece um casco oceânico provado e flexível; a Type 26 leva mais longe a especialização acústica e a modularidade. Não há vencedor abstrato: há adequação a missões, riscos, pessoas e dinheiro.
Atlântico Português – Periferia Europeia, Centralidade Mundial
Portugal é simultaneamente um Estado costeiro europeu, um arquipélago atlântico e um aliado situado entre o sub-continente norte-americano, a Europa e as rotas que conduzem ao Mediterrâneo e à África Ocidental. Nessa geografia, a fragata continua a ser o navio que melhor combina presença, escolta, luta anti-submarina, defesa aérea local, ataque de superfície, comando de forças e resposta a crises. O regresso da competição entre potências, a ameaça a cabos submarinos, a proliferação de mísseis e drones e a expansão de submarinos convencionais silenciosos devolvem ao Atlântico uma densidade militar que a Europa subestimou durante décadas.[12]
Operar no Atlântico Norte impõe mais do que velocidade e armamento. Exige comportamento marinheiro com mau tempo, baixa assinatura acústica, redundância de energia e comunicações, autonomia logística, capacidade de reabastecimento no mar, oficinas que reparem em missão e alojamentos ergonómicos, confortáveis e compatíveis com destacamentos longos.
Considerando que uma fragata deverá permanecer ao serviço durante várias décadas, o seu projeto inicial deve prever reservas de espaço, peso, energia elétrica, refrigeração e capacidade de processamento de dados. Estas margens permitirão integrar, ao longo da vida do navio, novos radares, servidores, armas de energia dirigida e sistemas não tripulados, sem exigir alterações estruturais profundas ou excessivamente dispendiosas. É aqui que a comparação entre plataformas ganha utilidade. A FDI[13] francesa concentra sensores e armamento de primeira linha numa fragata compacta de cerca de 4.500 toneladas, 122 metros e autonomia publicitada de 45 dias.[14]
F110 — A Alternativa Espanhola
A F110 da Navantia merece ocupar um lugar central na comparação porque foi publicamente associada à avaliação portuguesa e porque representa uma das fragatas europeias mais ambiciosas da nova geração. A primeira unidade, F111 Bonifaz, foi lançada em setembro de 2025 e o programa espanhol encontrava-se em produção em série em 2026.[15]
A Navantia define a F110 como uma escolta polivalente com capacidades antiaéreas, antissuperfície e anti-submarinas, concebida para proteção da força e projeção de poder naval. O projeto incorpora propulsão híbrida CODOE, espaço multimissão, arquitetura digital, cibersegurança, sensores avançados e um conceito de “navio inteligente” suportado por gémeo digital e manutenção baseada em dados.[16]
No plano do combate, a F110 combina o sistema espanhol SCOMBA[17] com radar SPY-7[18], lançadores Mk 41[19] e uma arquitetura de sensores integrada. O mastro integrado concentra radares, sensores eletro-óticos e guerra eletrónica, enquanto a componente ASW beneficia de sonar de casco e soluções de sonar rebocado/de profundidade variável.[20] Em termos de defesa aérea e crescimento de armamento, a utilização do Mk 41 constitui uma vantagem importante pela diversidade potencial de munições e pela ampla comunidade de utilizadores.
Para Portugal, os seus principais argumentos seriam a proximidade geográfica e industrial, a dimensão oceânica, a sofisticação AAW, a digitalização do ciclo de vida e a possibilidade de cooperação ibérica. As reservas seriam a menor maturidade operacional de uma classe ainda em introdução, o custo, o calendário e a dependência de componentes e autorizações norte-americanas em áreas críticas do sistema de combate. Acresce que, no quadro SAFE, a origem dos componentes é uma variável relevante. Assim, a F110 surge como uma alternativa tecnicamente fortíssima, mas menos madura do que uma família FREMM já amplamente operada.
ASWF — A Alternativa Neerlandesa
A ASWF, desenvolvida sob liderança neerlandesa pela Damen Naval com o Thales e em cooperação com a Bélgica, é a alternativa que mais diretamente desafia a FREMM EVO no eixo da luta anti-submarina. O contrato inicial previa quatro navios – dois para os Países Baixos e dois para a Bélgica – para substituir as fragatas M-Karel Doorman.[21]
O projeto foi concebido de raiz com a ASW como prioridade, ainda que mantenha capacidade multimissão. A Damen publicou uma plataforma de cerca de 145 metros, 18 metros de boca e aproximadamente 6.400 toneladas de deslocamento, dimensões que oferecem espaço para sensores, combustível, aviação, crescimento e persistência oceânica. A Thales fornece o sistema integrado de radar e direção de tiro e o programa procura combinar elevada automação, assinatura reduzida e sensores de nova geração.
Há ainda uma afinidade histórica particularmente interessante para Portugal: as atuais fragatas Bartolomeu Dias derivam precisamente da família M-Karel Doorman construída nos Países Baixos. Isso não cria automaticamente vantagem logística, porque a ASWF é um projeto de nova geração, mas significa que existe uma tradição de relacionamento técnico entre as marinhas e a indústria neerlandesa que não deve ser ignorada.
A principal reserva é a maturidade. Em 2026, o programa continuava em desenvolvimento e fontes especializadas reportavam pressão significativa sobre o calendário.[22] Para uma Marinha que precisa de substituir navios envelhecidos num horizonte curto, o risco de desenvolvimento pesa muito. A ASWF pode vir a revelar-se uma das melhores fragatas ASW europeias da sua geração; porém, no momento da decisão portuguesa, oferecia menos evidência operacional e maior incerteza de calendário do que a família FREMM.
FDI – A Alternativa Francesa
A FDI[23] francesa merece particular reconhecimento pela extraordinária densidade tecnológica que concentra num casco relativamente compacto, com cerca de 4.500 toneladas de deslocamento e 122 metros de comprimento. Trata-se de uma fragata de primeira linha, concebida desde a origem para operações de elevada intensidade nos domínios antiaéreo, antissuperfície, antissubmarino, assimétrico e cibernético. A sua arquitetura de combate integra o radar multifunções Sea Fire, de faces fixas e varrimento eletrónico, capaz de vigilância aérea e de superfície a 360 graus e de seguimento simultâneo de múltiplos alvos, incluindo ameaças supersónicas; mísseis ASTER para defesa aérea; Exocet MM40 Block 3C para ataque antissuperfície; torpedos MU90; canhão de 76 mm; contramedidas antitorpedo; e capacidades orgânicas para operar simultaneamente um helicóptero da classe de 10 toneladas e um UAV de descolagem vertical.
A FDI distingue-se igualmente pela sua conceção digital nativa. A arquitetura do navio foi estruturada em torno de centros de dados embarcados, com especial atenção à ciber-resiliência, à automatização e à capacidade de incorporar evoluções futuras de software e sensores. A forte automação permite manter um efetivo relativamente reduzido para uma fragata desta capacidade, sem sacrificar a amplitude das missões.
A primeira unidade, Amiral Ronarc’h, foi entregue à Marine nationale em outubro de 2025 e realizou, em 2026, um longo destacamento operacional de 123 dias, incluindo operações no Atlântico Norte e em ambientes de águas frias, precisamente para validar o comportamento e as capacidades do navio em condições exigentes. É, por isso, uma solução extremamente moderna e poderosa para marinhas que procuram uma fragata de primeira linha mais compacta. Para Portugal, contudo, a principal reserva não reside na qualidade dos sensores ou do sistema de combate, mas na margem física oferecida pela plataforma. Em operações prolongadas no Atlântico Norte, um casco de maior deslocamento pode oferecer vantagens em comportamento no mar, reservas de combustível e munições, habitabilidade, capacidade logística, embarque de equipamentos adicionais e margem de crescimento ao longo de três ou quatro décadas de serviço. Essa vantagem não é absoluta — maior deslocamento significa igualmente maiores custos de aquisição, operação e manutenção — mas, para uma marinha com vocação atlântica e exigências de permanência prolongada no mar, constitui um critério que não deve ser subestimado.
FREMM EVO: Evolução com Risco Controlado A principal virtude da FREMM EVO reside no equilíbrio entre continuidade e transformação. A família franco-italiana já gerou navios operacionais em várias marinhas, acumulou anos de mar e criou uma........
