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O pior dos dois mundos

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06.03.2026

1Durante décadas, a política externa dos Estados Unidos foi criticada por um paradoxo conhecido: em nome da ordem internacional liberal, Washington mostrou-se repetidamente disposto a intervir militarmente noutros países para derrubar regimes ou moldar equilíbrios regionais. Essas intervenções, principalmente no Afeganistão, no Iraque e na Líbia, mostraram os limites e as contradições dessa ordem. Na última década, em resposta aos custos dessas intervenções, grande parte da opinião pública norte-americana tornou-se mais reticente em relação a novas intervenções externas.

Mas o que começa agora a emergir pode ser algo bastante pior. É o pior dos dois mundos. Por um lado, temos as intervenções que associamos à ordem liberal hegemónica do passado, mas sem os compromissos e responsabilidades que essa ordem impunha. Por outro lado, temos uma política internacional dominada pela hierarquia de poder sem normas, mas sem a retração isolacionista e a prudência do realismo como doutrina e como política coerente. Continuamos a ter intervenções externas, mas elas abdicaram quase por completo dos princípios liberais e institucionais que antes as enquadravam.

Em menos de oito semanas, a administração de Donald Trump levou a cabo a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro numa operação militar em Caracas e o assassinato do aiatola iraniano Ali Khamenei, durante o bombardeamento continuado do Irão. Em ambos os casos, a natureza dos regimes foi invocada como justificação para a intervenção e a possibilidade de mudança política apresentada como objetivo. A novidade não está, evidentemente, no recurso à força. No entanto, olhando para ambos os casos, é difícil identificar qualquer planeamento sério para o dia seguinte, ou uma definição clara da lógica e dos objetivos estratégicos destas intervenções. A novidade está na combinação entre intervenções externas e o abandono dos compromissos institucionais, das alianças e das responsabilidades que antes enquadravam e legitimavam (ainda que parcialmente) essas mesmas intervenções.

Compromissos de reconstrução, estabilização e até democratização no pós-conflito. Apresentação de evidência e deliberação em instituições internacionais ou domésticas. Procura de coligações internacionais e aliados antes de acções tão disruptivas – não apenas para legitimar a intervenção, mas também para aumentar a sua probabilidade de sucesso e limitar as suas facetas mais irresponsáveis. Nada disso parece hoje minimamente relevante, especialmente num contexto em que a administração norte-americana passou os últimos meses a intimidar e alienar os seus aliados atlânticos, desde as tarifas até à Gronelândia. É hoje quase inevitável concluir que Donald Trump quis desfazer os laços entre os EUA e os seus aliados ocidentais tradicionais para poder levar a cabo a sua visão do mundo: domínio e hierarquia por coerção, força e intimidação em vez de autoridade legítima e reconhecida pelos Estados mais fracos. Não é realismo nem isolacionismo; é intervencionismo sem regras e sem arquitectura.

O problema do intervencionismo e do poder sem regras, sem freios e sem arquitectura institucional não é apenas moral: um mundo mais arbitrário é um mundo menos seguro, com mais riscos, mais erros de cálculo, mais escaladas militares perigosas, e onde todos tentarão maximizar a sua autonomia – a sua capacidade de agir e reagir unilateralmente – mesmo que para tal tenham de diversificar alianças. No final das contas, todos estarão por conta própria e duvido que alguém saia a ganhar. Pelo contrário, o ressentimento, o afastamento e o anti-americanismo sairão a ganhar.

2Este tipo de intervencionismo sem regras e sem arquitectura institucional tem uma expressão militar muito concreta: os bombardeamentos como substituto da estratégia política. O poderio dos bombardeamentos oferece uma fantasia aos líderes políticos: a ideia de que é possível colher os benefícios geopolíticos de uma vitória militar – e a glória que essas vitórias ocupam no imaginário coletivo – sem incorrer nos custos e incómodos que as guerras inevitavelmente geram. A vulnerabilidade das operações no terreno, o risco humano e político de ter soldados expostos em combate, a possibilidade de o conflito se prolongar muito para além do que foi inicialmente previsto. Os bombardeamentos aéreos parecem permitir evitar tudo isso e ainda assim reclamar sucesso estratégico e colher os louros.

Mas esta fantasia é apenas isso: uma fantasia. Não é possível substituir regimes autoritários institucionalizados por outros regimes melhores a partir do ar. Substituir um regime sem que surja um vácuo de poder implica garantir a sobrevivência de um aparelho de Estado funcional e assegurar que as instituições ficam nas mãos de pessoas com autoridade doméstica e com credibilidade para executar essa transição. Matar um líder não chega para destruir um regime, e muito menos para substituir um regime por outro. Um líder pode simplesmente ser substituído por outro, muitas vezes proveniente dos altos escalões do mesmo regime. A curto prazo (na melhor das hipóteses), até se poderá submeter à vontade do mais forte, mas a médio prazo reajustará a estratégia para alcançar objectivos semelhantes e evitar novas vulnerabilidades na sua segurança. Não é possível atingir grandes objectivos estratégicos duradouros apenas com bombardeamentos, especialmente se eles não são acompanhados por coerência e talento diplomáticos.

3Como já aqui escrevi, os custos financeiros, reputacionais, humanos e militares das guerras que os Estados Unidos levaram a cabo no Médio Oriente nas primeiras duas décadas deste século tornaram grande parte do eleitorado norte-americano avesso a novas aventuras. Donald Trump foi, em parte, eleito precisamente porque representava uma nova atitude mais isolacionista, mais avesso a guerras eternas, menos “polícia do mundo” do que as elites do establishment tradicional norte-americano. A base do movimento MAGA distinguia-se, portanto, de outras correntes do partido republicano tradicional no que toca a política externa. Algumas figuras deste movimento, como Tucker Carlson, continuam a acreditar nestas ideias e declararam oposição à intervenção mais recente no Irão. Sobre Trump, não é claro se acreditou verdadeiramente nesse isolacionismo; acreditou sobretudo que se deveriam desfazer os laços existentes e duradouros com aliados tradicionais, mas o seu desejo de demonstrar força e ficar na história leva-nos a questionar se é assim tão avesso às operações e intervenções pelo mundo fora. O que é certo é que esta clivagem dentro da coligação republicana que elegeu Donald Trump não desaparecerá nos próximos tempos.

E o eleitorado? Numa sondagem recente, apenas 27% dos eleitores norte-americanos apoiavam uma acção militar contra o Irão. Mas a opinião pública, principalmente a opinião do eleitorado mais partidário, pode ser revertida após a intervenção começar. Antes da operação na Venezuela, apenas 44% dos eleitores republicanos apoiava uma acção militar contra Maduro; depois da operação, o número subiu para os 78%. Em termos gerais, os presidentes acabam por ter bastante latitude nas suas decisões sobre política externa e acções militares no estrangeiro porque a opinião pública segue os sinais e declarações das suas elites políticas preferidas, enquanto os conflitos ainda não mostram ter custos materiais concretos e parecem ser de curta duração. A opinião pública raramente impede guerras antes de elas começarem.

O que pode, então, restringir e influenciar as decisões dos presidentes? Como argumenta Elizabeth Saunders, no que toca a decisões sobre guerra e paz, os presidentes norte-americanos respondem essencialmente a outras elites, políticas, diplomáticas, burocráticas e militares. Apesar do seu papel legal, o Congresso deixou de ser um travão à acção presidencial nestas matérias. Restam, portanto, outras elites políticas dentro das próprias administrações, que têm reputação própria e credibilidade, bem como capacidade de resistir em público ou em privado. Na primeira administração Trump, estes mecanismos de contenção interna funcionaram parcialmente (por exemplo, através do general Jim Mattis). Na segunda administração, porém, Trump rodeou-se de pessoas sem grande experiência ou independência próprias e que não parecem dispostas ou capazes de o contestar. Trump enfrenta, portanto, muito poucos constrangimentos institucionais para continuar a usar força militar pelo mundo fora. Durante décadas criticou-se o paradoxo e as hipocrisias da ordem liberal. O que começa agora a emergir pode ser o pior dos dois mundos.

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