menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O pior dos dois mundos

37 0
06.03.2026

1Durante décadas, a política externa dos Estados Unidos foi criticada por um paradoxo conhecido: em nome da ordem internacional liberal, Washington mostrou-se repetidamente disposto a intervir militarmente noutros países para derrubar regimes ou moldar equilíbrios regionais. Essas intervenções, principalmente no Afeganistão, no Iraque e na Líbia, mostraram os limites e as contradições dessa ordem. Na última década, em resposta aos custos dessas intervenções, grande parte da opinião pública norte-americana tornou-se mais reticente em relação a novas intervenções externas.

Mas o que começa agora a emergir pode ser algo bastante pior. É o pior dos dois mundos. Por um lado, temos as intervenções que associamos à ordem liberal hegemónica do passado, mas sem os compromissos e responsabilidades que essa ordem impunha. Por outro lado, temos uma política internacional dominada pela hierarquia de poder sem normas, mas sem a retração isolacionista e a prudência do realismo como doutrina e como política coerente. Continuamos a ter intervenções externas, mas elas abdicaram quase por completo dos princípios liberais e institucionais que antes as enquadravam.

Em menos de oito semanas, a administração de Donald Trump levou a cabo a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro numa operação militar em Caracas e o assassinato do aiatola iraniano Ali Khamenei, durante o bombardeamento continuado do Irão. Em ambos os casos, a natureza dos regimes foi invocada como justificação para a intervenção e a possibilidade de mudança política apresentada como objetivo. A novidade não está, evidentemente, no recurso à força. No entanto, olhando para ambos os casos, é difícil identificar qualquer planeamento sério para o dia seguinte, ou uma definição clara da lógica e dos objetivos estratégicos destas intervenções. A novidade está na combinação entre intervenções externas e o abandono dos compromissos institucionais, das alianças e das responsabilidades que antes enquadravam e legitimavam (ainda que parcialmente) essas mesmas intervenções.

Compromissos de reconstrução, estabilização e até democratização no pós-conflito. Apresentação de evidência e........

© Observador