A doutrina Monroe
1.Muita gente cá no país não está esclarecida quanto à doutrina Monroe. Os jornalistas invocam-na a esmo para servir os mais diversos objectivos, desde os comunistas, ainda hoje maioritários, aos outros. Tanto faz.
A doutrina Monroe, a que esse grande intelectual Trump chama agora doutrina «Donroe», é um conjunto de propostas políticas enunciadas há mais de dois séculos por um Presidente norte-americano, numa altura em que os Estados Unidos, como hoje os conhecemos, ainda não existiam e que, num reflexo anti-colonialista, tinham receio de quaisquer novas pretensões europeias, a que hoje chamaríamos «neo-colonialistas», no território norte-americano, então muito mais pequeno e fraco do que hoje e dividido por conflitos difíceis, com pouco ou quase nada de unidade. Daí um reflexo isolacionista e nacionalista que logo foi transmitido a todas as colónias espanholas na América do Sul e muito bem recebida, até no Brasil. E compreende-se bem. Depois do europeu Congresso de Viena de 1814/5 com a restauração da legitimidade monárquica, interrompida pelo indomável corso, os norte-americanos, então ainda débeis, temiam pelo pior, não fossem as reforçadas monarquias europeias, se bem que em moldes menos absolutistas do que outrora, virar as atenções para a América onde estavam a ser enxovalhadas. E algumas tentaram, sem êxito duradouro.
Aos eventuais leitores, se quiserem saber mais sobre a doutrina Monroe, leiam o livro Diplomacia, de Henry Kissinger, esse magnífico judeu alemão em boa hora exilado nos EUA e que nos presenteou com a sua cultura e inteligência.
2.Sucede que a doutrina Monroe não caiu em território virgem. Os norte-americanos europeus descendentes dos primeiros colonos chegados no Mayflower sabiam porque vinham e já estavam preparados para ela. Logo em 1630 o puritano John Winthorp declarava aos colonos do Massachusettes que lhes cabia a missão de construir uma nova comunidade modelar, inspirada no Evangelho segundo S. Mateus (5.14), e que serviria de farol de esperança para o resto do mundo. O objectivo era religioso, virado para a fundação de uma «city upon a hill», critério do «novo mundo», contrastando com a........
