Uma época de apelo à inutilidade humana
O ser humano está intimamente ligado ao tempo, talvez seja verdadeiramente a única coisa que conta desde que nascemos. Um dos nossos maiores desejos, ainda que nem sempre verbalizado, pensado ou admitido, é ter o domínio total do tempo. Queremos que ele nunca acabe, e mesmo quando queremos que ele acabe, queremos ser nós a decidir quando é que ele acaba. Queremos usá-lo bem, não ter de ser sujeitos à amargura desse dia final em que, ao olhar para trás, temos finalmente a confirmação de que perdemos tempo. Queremos fugir à insuficiência do tempo. Talvez por isso tantas das maiores descobertas da Humanidade sejam formas de o trapacear, numa tentativa de diminuir o tempo que gastamos com inutilidades, na esperança de que o tempo nos dê um pouco mais de tempo lá à frente no caminho.
Foi assim com o começo da agricultura; da linguagem escrita; da disseminação dessa linguagem com a imprensa; da máquina a vapor; da eletricidade; dos primeiros aviões; da inteligência artificial… Com séculos de desenvolvimento, conseguimos aumentar o nosso tempo de vida, diminuir o tempo que gastamos nas deslocações entre fronteiras e continentes e, mais do que tudo, tentámos diminuir o significado do tempo e a forma como ele nos aterroriza. Não importa já que ele passe mais rápido do que aquilo que nós nos conseguimos aperceber, porque o que alcançámos parece suficiente para dizer que ele já não nos........
