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#OMerdificador

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04.04.2026

Perguntar-me-á, o que é um “Merdificador”? A resposta é simples. É alguém ou algo, que sob a capa de “boas intenções” e, na prossecução de uma ideia, mais não faz que perturbar tudo a que se acomete. Por vezes, são situações há muito foram contaminadas ou já assim nasceram, noutras, a complexificação é recente e com facilidade conseguimos traçar o momento exato em que ocorreu. Muitas já nem damos conta. Essas são situações há muito instaladas e que, como uma velha mezinha, entraram na rotina sem que nos tenhamos apercebido do ridículo e patetice intrínseca ao seu ritual.

As mais recentes são mais avulsas, dão mais nas vistas e, em geral, decorrem das redes sociais, dos algoritmos, das redes de decisão, da informatização de serviços, enfim, de tantas situações em que o ridículo se amplificou com irritante ênfase e se estabeleceu neste “novo normal” pós pandémico (Doctorow, Cory. 2024. Enshittification is coming for absolutely everything).

O tema da “merdificação” e a forma como este fenómeno distraidamente nos envolve, não é uma reflexão de agora. David Graeber, no seu livro Bullshit Jobs: A Theory, com edição em português, dá-nos bastantes exemplos de trabalhos destituídos de sentido e descreve cinco atividades que rotula como como “trabalhos de treta”: tarefas destinados a fazer alguém parecer importante; funções criadas porque os outros também as têm; empregos destinados a resolver um sistema que não funciona e que há muito deveria ter sido abandonado; elaboração de relatórios e formulários que ninguém lê; gestores inúteis cuja função é inventar trabalho para o qual depois pedem recursos para desenvolver.

Neste livro, e para o ilustrar, o autor recorre a dois exemplos. O primeiro é o de um funcionário que faleceu no seu gabinete. O corpo só foi descoberto dias depois quando entraram as equipas de limpeza. O segundo exemplo é o de um funcionário de uma autarquia catalã que durante um ano não compareceu ao trabalho sem que alguém desse pela sua falta.

Para além destes casos anedóticos, e na linha dos “trabalhos de treta”, o autor cita um estudo seu realizado em Inglaterra, onde vários trabalhadores foram inquiridos sobre a importância do seu trabalho para a sociedade. Dos que responderam, 50% não o conseguiam avaliar como significativo. Destes, 20% viam ainda no seu trabalho aspetos que identificavam como potencialmente prejudiciais ou mesmo de malvadez retorcida para a sociedade.

É certo que este é apenas um estudo. Outros investigadores encontraram uma menor prevalência para as mesmas questões. Contudo, e apesar das dúvidas, o que devemos reter é que o fenómeno existe e isso é algo a não ignorar.

Um “Merdificador” podemos entendê-lo como um sistema ou mais prosaicamente, como alguém ou ambos, cujas ações resultam inadvertidamente ou com propósito em prejuízo para os utilizadores ou para a sociedade.

Longe vai o tempo em que as relações económicas entre as pessoas assentavam na troca direta, o velho escambo. Com o crescimento da população e a dependência da troca de produtos, surgiram nas relações comerciais formas mais complexas de mediação. Primeiro com uma moeda-valor em que determinados bens assumiram essa função, depois com a moeda cunhada e, mais tarde, com o papel-moeda. Cada uma destas etapas acompanhou o alargamento das relações económicas e permitiu que as trocas comerciais........

© Observador