O fim anunciado da Iniciativa Liberal por Cotrim Figueiredo
O partido teve origem numa associação cívica criada em 2016 e foi registado em 2017.
O programa político estruturou-se à volta de ideias muito claras: simplificar e reduzir a carga fiscal; reduzir o peso do Estado na economia, promover a concorrência e a liberdade de escolha e incentivar uma maior possibilidade de escolha entre público e privado na saúde e na educação.
Não obstante a clareza dos seus propósitos, o partido nunca conseguiu ter o êxito que muitos liberais ambicionavam. Muitos sonharam, tal como eu, com um Portugal verdadeiramente liberal, e viu na Iniciativa Liberal uma lufada de ar fresco. A desilusão tomou conta de muitos membros ao ver o partido transformar-se para pior num partido igual aos outros: falta de debate interno, silenciamento dos opositores, desprezo pelas opiniões divergentes. Vimos um partido obcecado com soundbites para as redes sociais, tornou-se um partido igual aos outros, sem uma agenda de reformas, sem ambição e nenhum projeto, nem uma estratégia partidária que pudesse estar ao serviço dele. Na gestão interna do partido, sempre que “o pensamento não agrada”, as vozes mais críticas são afastadas. O afastamento de Carla Castro veio revelar este triste ambiente que se vive dentro de portas: os deputados são escrupulosamente escolhidos numa coerência centralista. A nível local, as estruturas locais não têm autonomia e esta forma de exercer o poder tem sido fatal, considerando os resultados eleitorais.
Assistimos inesperadamente a várias sucessivas demissões dos seus líderes: Miguel Ferreira da Silva, o primeiro presidente do partido, demitiu-se por causa de uma polémica relacionada com uma página do partido no Facebook; Carlos Guimarães Pinto, que presidiu entre 2018 e 2019, saiu da liderança um mês depois de Cotrim ser eleito deputado único pela IL pelo distrito de Lisboa em outubro de 2019, alegando querer deixar o lugar ao eleito mais votado do partido mas também por motivos pessoais e por entender que a sua missão estava cumprida; João Cotrim de Figueiredo que tinha entrado nesse longínquo ano de 2019, sai em 2023, alegando que a estratégia do partido devia ser outra; por fim, Rui Rocha, que foi presidente de 2023 a 2025, no seu segundo mandato (as comissões executivas do partido têm uma duração de dois anos), e apesar de ter declarado que a IL tinha tido “ o melhor resultado de sempre” nas legislativas de maio de 2025, sai curiosamente pouco tempo depois de um recado de João Cotrim Figueiredo e por entender que o partido não tinha alcançado “a preponderância desejada”.
Com Cotrim, o partido dos princípios e valores (com uma Declaração de Princípios e um programa político irrepreensíveis) revelou acomodar-se à agenda pessoal do seu líder. Uma estrutura centralista muito cedo concentra o poder de decisão nas seguintes figuras: Cotrim Figueiredo, o líder com maior potencial eleitoral; o deputado Rodrigo Saraiva, ex. líder parlamentar; Miguel Rangel, o antigo secretário-geral e agora deputado; e por fim Ricardo Pais Oliveira, o omnipresente e eterno vice-presidente. Carlos Guimarães Pinto, uma das vozes mais proeminentes do partido, não aparece nas convenções eletivas do partido, e é indiferente ao ambiente que se vive internamente. O partido tem revelado não ter uma estratégia clara, e oscila entre a vontade de integrar uma solução governativa com a AD ou a crítica sistemática ao governo, trabalhando num cenário totalmente oposto em que negoceia caso a caso no Parlamento.
É neste ambiente de declínio, com um cada vez maior desinteresse dos seus militantes e simpatizantes, que se constata não existir um verdadeiro escrutínio da atividade dos decisores nem transparência nas decisões do partido, uma vez que o Conselho Nacional, o órgão que recebe da Convenção o mandato de garantir a estratégia política adotada e que deveria avaliar a ação do órgão executivo (a comissão executiva), tem-se revelado um órgão sem independência funcional e sob o domínio e o controlo de quem detém o poder, prejudicando qualquer separação de poderes.
É neste contexto que surge “a marca Cotrim”. Em finais de 2022, Cotrim Figueiredo afasta-se da liderança do partido, sem motivo aparente, para um ano depois, em 2024, se candidatar às eleições europeias. Seria injusto não referir que devemos ao João Cotrim Figueiredo a afirmação e a consolidação do partido e que Cotrim foi um líder extraordinariamente profissional, que levou o partido a conquistar 8 deputados nas eleições de janeiro de 2022. Mas olhando para o que tem sucedido nestes últimos anos, não podemos deixar de constatar que Cotrim se afasta da liderança num momento crucial para o crescimento do partido, e sem nunca esclarecer convenientemente os motivos de tal decisão. Cotrim já não consegue disfarçar a sua agenda pessoal e anuncia a sua candidatura às europeias para um ano depois se candidatar às presidenciais.
Nestas duas eleições o partido não lhe regateia apoio e coloca à sua disposição todos os meios possíveis, num partido que dizia à boca cheia privilegiar as ideias em detrimento do culto da personalidade do líder. Os outdoors espelhados pelo País são o espelho vivo desta submissão ao circo mediático de entretenimento, onde os discursos vazios contam muito mais que os atos. Cotrim não passa à segunda volta, assume a derrota, mas cedo apressou-se a lançar “um movimento cívico-político” com os 16% dos votos obtidos e 900.000 eleitores. Vem defendendo que o “seu movimento 2031” será apartidário e recusa para já que a sua iniciativa implique algum tipo de candidatura.
Esta vontade apressada de dar expressão aos votos revela, na minha opinião, que não existe na realidade nenhum objetivo de mudança social e ideológica no projeto, mas apenas uma intenção indesmentível de reforçar a sua influência política no panorama político nacional. Se a ideia fosse preparar uma recandidatura a Belém dentro de cinco anos, não se anunciaria a sua preparação com tanta antecedência, até porque muitas coisas mudam nesse espaço de tempo. Por outro lado, não é no cargo da Presidência da República que se criam as condições “para chefiar um campo grande que precisa de uma liderança” como afirmou Bernardo Blanco, mandatário nacional da candidatura de Cotrim, poucos dias depois da primeira volta. Assim, a ideia mais plausível é criar um movimento político que conflua na criação de um novo partido, podendo concluir sem grande margem de erro que será o fim da Iniciativa Liberal.
A criação de um novo partido para entrar em força no eleitorado da AD, desiderato que a IL nunca conseguiu atingir verdadeiramente, vai esvaziar o campo político da IL. Se o projeto fosse criar um verdadeiro laboratório de ideias, ao estilo Instituto + Liberdade, julgo que essa hipótese não teria grandes resultados práticos, pelo que se nos afigura a menos provável. Depois de uma campanha a descolar-se da IL e de conseguir mais do dobro dos votos do partido em Legislativas, Cotrim quis vincar que o caminho construído com a sua candidatura presidencial não podia ficar por aqui, não fazendo qualquer referência direta ou indireta ao partido que já liderou. Assumiu sempre durante a campanha eleitoral que queria expandir a base eleitoral para lá do eleitorado habitual da IL, jovem e de classe económica mais elevada. E de facto foi visível que na campanha, descolou-se do partido, nos temas abordados e na ausência de figuras liberais. É claro que o seu projeto político não passa pela IL, é um projeto pessoal que tem agora um espaço de comentário na SIC-Notícias. Demonstrou um tacticismo político durante a campanha presidencial que não é compatível com o perfil exigido para o cargo. Aliás, quando era líder, ao escolher o seu sucessor e condicionando a escolha dos membros do partido, já tinha denunciado a sua verdadeira imagem.
A intenção de criar um movimento político, no centro-direita, moderado e reformista, para agregar a direita liberal e democrática, competindo com a AD na conquista deste eleitorado e com o Chega no propósito de liderar a direita em Portugal, retira obrigatoriamente a IL da equação política. A posição pública da atual líder do partido, Mariana Leitão, e da sua comissão política, que veem no movimento do Cotrim um projeto “necessário e agregador”, revelam, mais uma vez, a submissão da atual direção do partido ao projeto Cotrim. A Presidente da IL deixou de garantir aos membros do seu partido que a Iniciativa Liberal é o principal veículo da visão reformista que tem para o País, passando essa incumbência para o movimento 2031. Não há maior prova de seguidismo e de falta de liderança que esta declaração pública!
O que deveria defender a Iniciativa Liberal para se afirmar como partido reformista à direita?
O partido nunca soube verdadeiramente representar a direita moderada e liberal contra uma direita mais conservadora e nacionalista, retrógrada e situacionista, que vive do protesto, representada pelo Chega. O partido erradamente sempre se afastou de um posicionamento ideológico à direita, mantendo uma equidistância infantil entre direita e esquerda. Desde a sua fundação, nunca conseguiu atrair muito eleitorado da AD, não deu aos Abstencionistas razões suficientes para votar, e deixou fugir muitíssimos eleitores descontentes com os partidos do regime para um partido populista e radical, que soube aproveitar a inércia dos partidos tradicionais.
Ao comemorar sucessivas derrotas como se fossem grandes triunfos, a Iniciativa Liberal afastou-se da realidade que se vive no País, fechou-se no aparelho partidário e deixou-se capturar por uma visão economicista demasiado simplista onde tudo se resolve com privatizações, com cortes e com o funcionamento do mercado. Deixou de ter respostas convincentes e iniciativa política em temas tão importantes como a habitação, a saúde, a precariedade laboral e o ambiente, para dar apenas alguns exemplos.
Enquanto Liberais, não podemos deixar de defender que todas as pessoas têm direito a prestações sociais mínimas e a serviços básicos de saúde. Para os cidadãos, o que interessa é saber como estes serviços são assegurados, face à degradação progressiva e sustentada, sem perspetivas de melhoria. No caso da saúde, há uma distinção clara entre aqueles que assentam o SNS numa estrutura pública e centralizada, e os que defendem, como a Iniciativa Liberal deveria defender de forma inequívoca, um sistema que compatibilize serviços públicos que podem ser prestados por entidades privadas e públicas, sistema esse que transfira o poder de escolha e decisão para os cidadãos. A IL deve estar sempre ao lado daqueles que acreditam na liberdade de organização e na liberdade do mercado, e demarcar-se dos que acreditam no papel do Estado como único prestador de serviços sociais. Hoje, é irracional discutir o papel fundamental do Estado na regulação e na prestação de determinados serviços, tendo em vista garantir serviços básicos que permitam a cada cidadão viver com um mínimo de dignidade e a IL tem por obrigação demonstrar ao eleitorado, e não tem sabido fazê-lo, que não é contra este Estado-garantia, já que, face às desigualdades sociais que persistem na nossa sociedade, é um imperativo ético sustentar um modelo social de sociedade que defenda os mais frágeis e os mais vulneráveis.
É evidente que a IL não tem sabido mostrar ao eleitorado que determinados serviços de qualidade devem ser acessíveis a pessoas que, pelos seus meios, não têm acesso a esses serviços. Na educação, por exemplo, o que acontece hoje na prática é que temos um número de escolas de elite privadas que só funcionam para uma classe alta ou média alta, atendendo aos encargos financeiros dos serviços prestados e ao grau de seletividade para entrar. Devemos promover uma liberdade de escolha na educação para no futuro o Estado garantir o financiamento total dos encargos mensais e permitir aos pais ter liberdade de escolha em relação à escola onde querem colocar os seus filhos. Devemos defender serviços de qualidade na educação e na saúde e que estes sejam acessíveis aos mais desfavorecidos. Um partido liberal não quer que o Estado se retire da Segurança Social, nem da saúde, nem da educação. E deve defender, sim, o princípio da liberdade de escolha por parte dos cidadãos. A IL deve reforçar a ideia que o Estado tem de garantir a prestação desses serviços, que são absolutamente fundamentais num Estado solidário, num modelo social que deve ser preservado na Europa. A diferença de um liberal para com um social-democrata é a forma como se podem organizar eficientemente esses serviços e o papel que o indivíduo deve ter na definição deste modelo solidário.
O facto de termos vivido estes últimos 50 anos de democracia num modelo de alta dependência em relação ao Estado e estarmos como estamos, deveria criar nas pessoas a vontade de percorrer um caminho diferente que valorize valores como a liberdade e a responsabilidade individual. A IL deve protagonizar esta mudança. Ir atrás dos anátemas que a esquerda cria relativamente à ideologia liberal, e perder tempo com questões identitárias e de experimentalismo social são um enorme erro político e têm retirado o partido do debate essencial que deve ser travado no País.
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