A guerra que ninguém quis, mas que era inevitável
Muitas guerras nascem da imprudência. Outras da estupidez. Outras ainda da hubris de líderes que confundem mapas com espelhos. Mas há também guerras, como a que agora decorre no Médio Oriente, que resultam de uma realidade estratégica ignorada durante demasiado tempo.
Quem olhar para o Médio Oriente sem ilusões e com um mínimo de noção de interesse próprio, percebe que esta guerra não começou por um capricho de Donald Trump, nem por maldade de Netanyahu. Começou porque, desde 1979, existe no coração da região um regime revolucionário que decidiu transformar a ameaça permanente, a desestabilização regional, o terrorismo e a chantagem estratégica na sua razão de existir e no seu modus faciendi.
A própria génese do regime diz muito sobre a sua natureza. A República Islâmica iniciou o seu percurso de violência e aproveitamento sistemática do direito internacional com a invasão da embaixada dos Estados Unidos em Teerão e o sequestro de diplomatas durante 444 dias. Tudo sob o olhar complacente de Jimmy Carter, um presidente americano que, parecia compreender melhor o cultivo de amendoins do que as leis elementares do poder.
Desde então o padrão tem sido constante. Ao som do slogan “Morte aos três satãs: o Grande Satã, o Pequeno Satã e o Satã Ocidental”, apoio a milícias armadas, financiamento de organizações terroristas, ataques indirectos contra adversários regionais e uma política externa construída sobre a lógica da intimidação e da ameaça.
Convém, portanto, começar pelo essencial sem nos deixarmos enredar na lengalenga hipócrita da “violação do direito internacional”, essa divindade abstracta que alguns desataram subitamente a invocar como se fosse um amuleto.
Os objectivos declarados de Washington e de Jerusalém são relativamente claros e, no contexto do problema, surpreendentemente modestos: eliminar o programa nuclear iraniano; neutralizar o desenvolvimento de mísseis balísticos de longo alcance; desmantelar a rede de milícias e grupos terroristas armados que Teerão financia em metade do Médio Oriente; e garantir que o comércio mundial, especialmente o energético, continua a circular sem chantagem pelos dois gargalos estratégicos da região, o Estreito de Ormuz e o de Bab el-Mandeb.
Os objectivos do regime iraniano são exactamente os opostos: preservar o seu poder interno sobre uma população cada vez mais cansada da repressão e da revolução permanente; manter intacto o aparato de intimidação estratégica; dotar-se da arma nuclear; continuar a........
