Atado e bem atado
No discurso de Natal de 1969, Franco tranquilizava os seus: a futura restauração monárquica em Juan Carlos I não ameaçava nada do que ele construíra. Estava tudo, na fórmula que haveria de o sobreviver, “atado y bien atado“. Foi talvez a única promessa do regime que se cumpriu ao contrário. Em Novembro de 1975, Franco morreu na cama, privilégio que negara a tantos, e o herdeiro escolhido para perpetuar o franquismo presidiu, com Adolfo Suárez, Santiago Carrillo e outras elites improváveis, ao seu desmantelamento. A transição foi exemplar, e foi também, ao contrário do mito que entretanto a embalsamou, difícil e incerta, dependente de um talento político que hoje escasseia. O nó atado por Franco desfez-se. Mas desfez-se demasiado bem, tão bem que ninguém teve de prestar contas por o ter atado.
E é precisamente essa limpeza que assombra a esquerda espanhola até hoje. A imagem do ditador a expirar serenamente entre lençóis, sem um único tribunal a interpelá-lo sobre a guerra civil ou sobre os quarenta anos que se lhe seguiram, é um dos fantasmas originais da democracia espanhola. Franco escapou ao juízo da História pela porta mais banal de todas: a morte natural. E uma democracia que nasce sem poder ajustar contas com o seu verdugo fica com uma factura moral por saldar, e com a tentação permanente de a cobrar a outros.
Para boa parte da esquerda espanhola, Portugal continua a ser uma espécie de farol. O PREC foi o mecanismo através do qual a ditadura pagou os seus pecados, a oportunidade de ajuste de contas que a Espanha nunca teve. Pouco importa que, na prática, não tenha havido purgas duradouras nem consequências reais........
