Do pesadelo da Kristin à floresta que precisamos
Nas primeiras horas da manhã seguinte à passagem da tempestade (Kristin), ainda sob o vento frio e húmido, o Joaquim seguiu pelo caminho em direção aos seus pinhais e eucaliptais. Faz este percurso há tantos anos que conhece cada curva, cada linha de árvores. Mas, naquele dia, o caminho mal se distinguia e parecia outro: troncos atravessados, pinheiros partidos pelo meio, eucaliptos derrubados, ramos espalhados, clareiras abertas onde antes havia continuidade de copa… um desastre! O furacão dessa madrugada mais pareceu um TGV a rugir que tudo levou num ápice, e o que deixou para trás ficará por muito tempo.
Como o Joaquim, muitos outros produtores e agentes da fileira florestal continuam hoje a percorrer as áreas afetadas do centro do País, tentando perceber quanto do trabalho acumulado ao longo de décadas continua de pé.
Em muitos casos, o que encontram não são apenas árvores derrubadas. É investimento, suor, tempo e expectativas que o vento levou. Joaquim faz contas à vida e à perda de rendimento, como o daquele eucaliptal que, quando foi preciso, financiou os estudos dos filhos que hoje estão bem na vida, doutores e engenheiros, mas longe deste mundo rural de minúsculas parcelas de terra que só o pai sabe onde ficam.
A floresta destroçada e a terra esventrada são cicatrizes anunciadas.
Mas o Joaquim vive num país onde tudo funciona.
Depois da tempestade, as lideranças públicas deram mais um nobre exemplo da sua proximidade e mobilizaram-se para ajudar a ir mais longe na recuperação do que caiu, preparar o futuro. Depois da tempestade, a sociedade está finalmente a aproveitar a oportunidade para regenerar verdadeiramente a floresta.
Joaquim está tranquilo. O país funciona.
Graças aos mecanismos entretanto acionados, o mercado está a responder com maturidade e equilíbrio, impedindo que o excesso momentâneo de oferta se transforme em desvalorização injusta do trabalho de uma vida inteira.
Ainda agora saímos da tempestade, mas o Joaquim sabe que não tarda chega a canícula e a época dos incêndios.
Será que o país vai funcionar? Claro que sim.
Joaquim olha para os caminhos e vê-os rapidamente desobstruídos, os acessos restabelecidos, a maquinaria a entrar nas parcelas sem demora. Os poderes públicos foram incrivelmente céleres na avaliação das perdas, na criação dos apoios à intervenção direta, à abertura de acessos e à circulação. E ainda bem! Este produtor florestal, como outros vizinhos, vai conseguir escoar a madeira que a indústria já anunciou que irá receber e valorizar a preço de mercado, apesar do trágico aumento de oferta de matéria-prima. Assim faz sentido: evita-se que toda esta madeira e biomassa venham a alimentar o fogo. E não se perde todo o rendimento.
Olhando à sua volta, o Joaquim percebe que nenhuma parcela está isolada. O que aconteceu ali mobilizou muitas outras vontades e deu início à recuperação concertada das várias parcelas em seu redor.
O país do Joaquim não só funciona como tem estofo para as grandes empreitadas!
A dimensão da destruição encontrou resposta numa ação coordenada, com organização e escala. Desta vez, não se perdeu tempo com mais diagnósticos ou “comissões” disto e daquilo. A estrutura de missão entretanto criada assumiu uma liderança determinada, com base na experiência de quem conhece o terreno. Indústria, fornecedores, organizações de produtores florestais, Estado e autarquias estão a trabalhar em conjunto. O todo tornou-se, finalmente, maior do que a soma das partes.
O Joaquim nem é pessimista – se fosse, não seria produtor florestal – mas sabe reconhecer quando as coisas funcionam. E, desta vez, até o labirinto de papelada deu lugar a um processo simples, direto, quase intuitivo. Onde antes havia entraves, há agora fluidez.
Medidas como a suspensão do RJAAR1 nas replantações, substituído por comunicações prévias, permitiram acelerar a resposta no terreno. Os apoios são atribuídos com simplicidade e clareza: modelos forfetários por hectare, tonelada ou quilómetro, validados por métodos diretos como o registo fotográfico antes e depois da intervenção. Os produtores sabem que o financiamento existe e chega diretamente, na hora, a quem executa o trabalho – produtores, fornecedores ou organizações de produtores florestais.
Como todos eles, Joaquim está habituado ao tempo da floresta. Quem planta árvores aprende cedo que o futuro não se mede em meses, mas em décadas.
Um país unido, com liderança forte e conhecedora de que esses ciclos da floresta não são os mesmos dos fugazes ciclos eleitorais. Por isso, quando agora olham para a terra, o Joaquim e os seus vizinhos sabem que, mais do pensar no que a tempestade levou, estamos todos de olhos postos no que vamos fazer crescer de novo e melhor, porque a oportunidade foi bem aproveitada.
Este é um país avançado no saber da floresta, com uma consciência pública de que reconstruir é mais que replantar. É uma ocasião para fazer melhor. Para desenhar a ocupação da propriedade de outra forma, com talhões diferentes, com plantas clonais mais produtivas, abrindo espaços que ajudam a quebrar a continuidade do mato e a tornar a paisagem mais segura. Joaquim até tem lido sobre agrofloresta e sabe que há novas formas de partilhar o terreno com zonas agrícolas e pastagens que geram novos negócios locais. Chamam-lhe mosaico florestal, e bem, pensa ele.
Dá gosto fazer floresta neste país. Cuidar do que a sustenta no longo prazo: proteger as linhas de água, respeitar as zonas mais frágeis da terra e melhorar caminhos e acessos que fazem toda a diferença quando chega a hora de prevenir ou combater um incêndio. Em muitas áreas onde as espécies infestantes ganharam terreno, estamos já a agarrar esta oportunidade rara: plantar com materiais genéticos de qualidade superior, assegurando maior produtividade e maior resiliência.
Nos encontros de produtores, o Joaquim percebeu que outras regiões da Europa já passaram por situações semelhantes. “Não é preciso inventar a roda” – disseram-lhe. Falaram-lhe do que aconteceu em França depois da tempestade Klaus, em 2009. Na altura, o governo francês mobilizou centenas de milhões de euros para limpar cerca de 197 mil hectares de floresta e ajudar a reconstituir outros 182 mil. Criaram áreas para armazenar madeira, apoiaram o transporte para escoar o excesso de material e disponibilizaram crédito bonificado para garantir liquidez aos produtores, acompanhando depois a recuperação da floresta ao longo dos anos. Ou o que fizeram na Suécia e até mais recentemente na Irlanda, com apoios diretos e simplificados para replantação e regeneração da floresta.
E, desta vez, o poder político responde como se espera: mobiliza, dá direção e ânimo, lidera. Joaquim escuta, com particular entusiasmo, as intervenções dos responsáveis públicos: “é possível fazer o mesmo no nosso país”. E fica a saber que Portugal ajustou estratégias e está a maximizar fundos europeus e instrumentos como o PRR e o “Mais Floresta”, que já estavam no terreno, mas podem ser agilizados. Até os programas da Biond estão a ser considerados, em versão estendida a todas as espécies florestais, como o Limpa e Aduba, o Replantar ou mesmo o Recuperação de Ardidos, ajustado aos danos da tempestade, unindo o setor privado e todos os parceiros.
A fileira está alinhada e o Estado cumpre o seu papel como catalisador. O país funciona.
O Joaquim pára por um momento. Olha à sua volta. Tudo faz sentido. Tudo encaixa. Como se, pela primeira vez, a resposta tivesse chegado à altura do problema.
E é então que acorda.
Vai do sonho ao pesadelo em segundos – com a rapidez de uma tempestade.
A parcela continua ali. Troncos atravessados. Acessos bloqueados. E este não é apenas o pesadelo de um produtor, mas sim um balanço de perdas de todo um país. A floresta não é um tema setorial, é antes uma questão de resiliência de todo o território e de competitividade nacional. É uma urgência, ainda mais num contexto em que fenómenos extremos se tornam cada vez mais frequentes e expõem fragilidades que já não podemos ignorar. Quando a floresta falha, não falha apenas uma parcela: falha a capacidade de proteger pessoas, sustentar atividade económica e preservar recursos essenciais.
Enquanto o labirinto burocrático se mantiver, enquanto os apoios e a ação se enredarem entre promessas de “comissões”, estaremos a assinar o auto de ignição do próximo verão. A indústria está pronta para escoar e valorizar a madeira; os fornecedores estão mobilizados para a processar e abastecer as fábricas e serrações; os produtores estão prontos para regenerar a terra com os prestadores de serviço e apoio da Indústria. Entre a floresta resiliente que projetamos e a vulnerabilidade que vivemos hoje, a distância critica é a celeridade da resposta pública e a capacidade de unir e coordenar.
O Joaquim já não espera por planos. Espera por execução. Ele e todo o país, não podem permitir que o tempo da burocracia ignore, mais uma vez, o tempo da natureza.
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