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Para quem é Portugal?

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31.05.2026

Segundo as artes místicas da ciência política, os governos existem para representar e servir os cidadãos. Mas o que é que acontece quando os governos deixam de servir os cidadãos? Acontece Portugal.

Em Portugal não há infantários para crianças. Não há casas para os jovens. Não há vagas nos lares para os idosos. As políticas fiscais sufocam quem cá nasceu e beneficiam quem nunca cá viveu. Os incentivos económicos ignoram quem cá quer ficar e vão para quem vem de fora. E os portugueses? Os portugueses ficam na praia a sorrir e a acenar.

Esta situação pode parecer bizarra. Como é que um país e os seus sucessivos governos podem sistematicamente continuar a ignorar os portugueses? Para quem é que passam os dias a trabalhar, a debater no parlamento, a desenhar projetos-lei e políticas públicas, quando nenhuma delas aborda os problemas dos seus cidadãos? A resposta é simples. O público-alvo de Portugal não são os portugueses. Não é para eles que os políticos trabalham.

Mas se Portugal não é para os portugueses, então para quem é?

Antes de mais, é importante perceber o que é Portugal. Portugal, ao contrário do que se acredita e do que se aprende na escola ou Wikipedia, não é um país. É um produto de exportação. Não vendemos apenas vinho, cortiça, pastéis de nata e programas de domingo à tarde. Vendemos o país inteiro. E em desconto.

Em teoria, um país existe para os seus cidadãos. Tem responsabilidades e tem deveres, tal como o cidadão. Tem de garantir habitação, saúde, educação, futuro. Tem de proteger os seus.

Um produto existe para ser vendido. Tem de ser competitivo, atrair compradores, gerar receita. Se os compradores forem estrangeiros ricos, melhor ainda.

A melhor analogia é pensar em Portugal como um bar aberto ou um buffet all-you-can-eat. Ou um resort de luxo com desconto para hóspedes VIP. É só que os portugueses não estão na lista de convidados.

O verdadeiro público-alvo deste país é mais chique que o contribuinte médio. É o cidadão estrangeiro, o fundo de investimento internacional, o nómada digital, o reformado importado, o turista endinheirado. Para esses temos tudo do bom e do melhor. Para esses os nossos governantes trabalham arduamente para atrair e satisfazer. Para esses temos todos os serviços disponíveis, basta clicar num botão. Naturalmente, o website não tem versão em português.

Enquanto isso, um jovem português licenciado, que trabalha, paga impostos e contribui para a Segurança Social, não consegue arrendar uma casa. Quanto mais........

© Observador