A essência política do Socialismo”
Num artigo anterior, fiz uma proposta para substituir a dicotomia esquerda-direita, enquanto ferramenta da filosofia política, por uma análise ontológica e teleológica do próprio objeto político. Neste texto, aplico essa metodologia ao socialismo, procurando identificar a sua interpretação da relação entre o indivíduo, a sociedade, o poder político e o fim político.
1 – O erro da autodefinição moral do Socialismo
Convém, antes de começar a própria análise, falar da visão contemporânea do Socialismo, que sofre de um vício interpretativo. Comentadores, analistas e até parte dos meios académicos tendem a interpretar o Socialismo a partir da sua própria promoção simplista, como justiça social, igualdade, proteção dos mais desfavorecidos, combate à exploração e representação política da liberdade. Esta caracterização é meramente propagandista e errada na sua realidade enquanto ideologia política.
Uma ideologia não deve ser analisada apenas pelo fim moral e social que proclama, mas pela sua essência política que considera necessária para realizar esse fim.
O erro está precisamente em aceitar como essência aquilo que é apenas a linguagem que os seus seguidores usam para a justificar. Na análise do Socialismo, a principal realidade da sua essência encontra-se, sobretudo, na forma como entende a relação entre indivíduo, sociedade e a lógica da
organização do poder político. No seu núcleo, o Socialismo parte da convicção de que os problemas e necessidades sociais devem ser transformados em ação política por uma estrutura superior – o Estado -, dirigida por uma elite que se considera capaz de interpretar e organizar a sociedade política. É esta arquitetura, mais do que a promessa de igualdade, justiça ou utopia, que deve estar no centro da análise.
2 – O erro da métrica esquerda-direita
Outro erro frequente consiste em associar automaticamente o Socialismo à esquerda, como se a categoria esquerda fosse suficiente ou útil para explicar a sua natureza, e os objetos políticos associados. Esta associação é hoje não apenas limitada, mas profundamente anacrónica. A divisão entre esquerda e direita, que nasce num contexto histórico concreto, está ligada aos movimentos revolucionários da da época moderna e à oposição entre rutura e continuidade, transformação e conservação, revolução e refundação. Nesse período, essa métrica podia ter utilidade para descrever posições políticas. No entanto, transformá-la num instrumento permanente de análise filosófico política revela a estagnação da própria ciência política, que continuou presa a uma dicotomia incapaz de interpretar a complexidade dos objetos políticos contemporâneos.
O Socialismo não deve, por isso, ser compreendido como simples expressão da esquerda, mas como uma família ideológica com uma estrutura própria de interpretação da sociedade e do poder. A categoria esquerda permite-lhe, muitas vezes, esconder-se atrás de valores moralmente positivos, como progresso, justiça, igualdade ou liberdade, ao mesmo tempo que coloca adversários conceptualmente próximos em campos aparentemente opostos apenas porque não partilham determinadas qualidades políticas ou identitárias. É aqui que a associação automática entre Socialismo e esquerda se torna útil à sua retórica, que em vez de ser analisado como teoria de poder, passa a ser apresentado como posição moral. O Socialismo sobrevive intelectualmente porque se esconde atrás da categoria esquerda, quando deveria ser analisado pela sua essência política.
3 – A essência ontológica e teleológica do Socialismo
Para compreender o Socialismo na sua essência, é necessário regressar ao critério fundamental de análise das famílias ideológicas que resulta da sua essência: a sua ontologia e a sua teleologia política.
A ontologia revela o modo como uma ideologia compreende a realidade daqueles que compõem a sociedade política, o indivíduo. A teleologia revela o fim político que essa mesma ideologia procura realizar. É através da relação destes dois conceitos que a verdadeira essência do objeto político é demonstrada.
Nenhuma ideologia deve ser analisada apenas pelo ideal que proclama, porque todas procuram, de uma forma ou de outra, uma determinada realização da justiça social e da igualdade. O que verdadeiramente as distingue é a sua essência política.
No caso do Socialismo, a sua ontologia assenta numa dupla desconfiança. Por um lado, desconfia da individualidade, porque entende que o indivíduo, entregue apenas a si mesmo, não possui capacidade, recursos ou consciência suficientes para compreender a verdadeira realidade social, identificar os seus problemas e as necessidades coletivas e individuais. Existe, por essa razão, a tendência para reduzir o indivíduo à sua condição única de cidadão ou ,numa melhor reflexão, à sua integração política num corpo social que deve ser orientado por uma estrutura de poder que detém a exclusividade do poder político. Por outro lado, o Socialismo desconfia também da sociedade histórica, que no caso português corresponde à Nação portuguesa, porque considera que os valores nacionais, a essência cultural, os valores morais e os ideais civilizacionais podem conservar vícios, dependências ou formas de resistência à ação política necessária. Assim, a sociedade não é compreendida como realidade que deve continuar a partir da sua própria........
