A laje das Lajes
Há uma coisa admirável na esquerda radical, a sua consistência na inconsistência.
Quando os mísseis iranianos rasgam o céu do Médio Oriente, quando o regime dos ayatollahs financia proxies que massacram civis e enforca mulheres por deixarem o cabelo ao vento, ouve-se um silêncio ensurdecedor nos mesmos círculos que, semanas antes, enchiam praças e redes sociais com a sua indignação selectiva e telegénica. Pedro Sánchez, esse iluminado gestor da contradição ibérica, que não hesita em reconhecer Estados e condenar democracias com a desenvoltura de quem muda de gravata, guarda o seu eloquente mutismo para os carrascos que não se enquadram na narrativa. Sartre chamaria a isto mauvaise foi, má-fé. Mas Sartre, convenhamos, também ele teve os seus silêncios convenientes face a Moscovo e a outras latitudes mais tropicais.
A hipocrisia não é nova. É, aliás, como diria La Rochefoucauld, o tributo que o vício presta à virtude. O que é novo, e deliciosamente absurdo, é a sua encenação contemporânea, onde a indignação moral é inversamente proporcional ao risco pessoal de a manifestar. Condenar Israel ou os Estados Unidos é seguro, rentável eleitoralmente, e não implica qualquer consequência. Condenar o Irão exige uma coragem que estas esquerdas, tão valentes nos seus gabinetes, teimam em não encontrar.
E é precisamente aqui que entram as Lajes, não como metáfora, mas como realidade nua e crua da política portuguesa.
A Base das Lajes não é um incidente diplomático. É um espelho, parafraseando o meu amigo Hélio Marta. Um espelho que nos devolve aquilo que somos desde que Alcácer Quibir, em 1578, nos retirou a ilusão da autonomia estratégica. Portugal perdeu, nessa tarde de agosto em Marrocos, não apenas um rei jovem e a sua flor de nobreza, perdeu a capacidade de se mover no tabuleiro internacional como peça independente. Desde então, fomos aliados de Inglaterra e, logo após, do atlantismo americano, e é nessa órbita que respiramos, que negociamos, que nos defendemos. Não é uma escolha ideológica é uma geografia histórica acoplada a uma geometria de poder.
Hegel ensinava-nos que a liberdade não é ausência de determinação, mas a consciência lúcida das condições em que existimos. Portugal não tem, nem terá no horizonte previsível, autonomia estratégica. A questão, portanto, não é se devemos ou não estar acoplados à geometria ocidental, porque essa é a nossa realidade. A questão não é saber com quem queremos estar, é, e sempre foi, onde não queremos pertencer.
E aqui reside o argumento que a esquerda radical, na sua vertigem anti-imperialista, recusa enfrentar. As alternativas, ao bloco a que pertencemos, não são neutras, não são românticas, e “não têm eleições”. Os Estados Unidos terão as midterm elections em Novembro. Israel vota em Outubro. São democracias ruidosas, imperfeitas, contraditórias, democracias funcionais na alternância de poder. Se não gostamos, votamos, mudamos. Já no bloco anti-imperialista, apoiada, cá no burgo, pelos paladinos da ignorância e hipocrisia bem falada, temos dos mais altos exemplos de atos democráticos, alguns até mesmo e oficialmente Repúblicas Democráticas e Populares. O Irão tem eleições, é verdade, do género em que o Conselho de Guardiões decide antecipadamente quem pode concorrer. A Rússia tem eleições com resultados decididos antes da contagem. É um modelo diferente. Menos incómodo para quem governa, sem dúvida. Quanto às Repúblicas Democráticas, não irei alongar-me…
Tocqueville advertia que as democracias tendem a ser ingénuas face às tiranias porque projetam nos seus adversários a boa-fé que cultivam internamente. É esse o pecado capital da esquerda radical ocidental contemporânea, confundir o anti-americanismo com pensamento crítico, tomar a pose pela análise, e, o mais grave, deixar que o conforto ideológico se sobreponha à responsabilidade moral perante os oprimidos reais, aqueles que não vivem em regimes onde se pode marchar livremente contra o próprio governo.
Portugal sabe bem o que é viver nesse contexto e talvez seja precisamente por isso que nos deveríamos lembrar, antes de cada pose de superioridade moral, que a base das Lajes não é uma humilhação, é o preço, e, simultaneamente, a garantia de pertencermos ao lado certo da história.
Não ao lado perfeito. Ao lado certo.
Que a diferença não seja difícil de encontrar é, em si mesmo, uma forma de esperança.
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