As ordens do mundo na História
Os humanistas críticos do século XVI – Maquiavel, More, Erasmo – estavam muito centrados na questão do bom governo. Embora não tivessem democracia, nem televisão, nem redes sociais, nem inteligência artificial, eram naturalmente inteligentes, lúcidos e bem informados. Tinham, por isso, percebido que o Papado e o Império se tinham esgotado na luta pela supremacia e que o Estado soberano se prefigurava como nova forma de comunidade política e de poder legítimo, em nome da paz e do bem comum.
E como é que esse Estado devia ser governado? Os humanistas, que tinham lido criticamente os clássicos, Platão e Aristóteles, que conheciam a história de Roma por Tácito, Lívio e Suetónio e a teologia e filosofia cristã por Santo Agostinho e São Tomás, desconfiavam da democracia. Para eles, a democracia tendia a degenerar em oclocracia, “o governo da multidão”. Assim, da clássica classificação tripartida, ficavam como opção a monarquia e a aristocracia; ou seja, a escolha seria entre o governo de um só e o governo de poucos. E para pensar ou discorrer sobre estas formas de governo, ora recorriam a alegorias e utopias, como More, ora aos mais convencionais “espelhos” para educação dos príncipes, como o Institutio principis christianus, de Erasmo, um manual de bons princípios para o “príncipe cristão”, que devia ser um imitador de Cristo, educando os súbditos pelo exemplo e mostrando-se disposto a carregar a sua cruz.
Já o florentino Maquiavel, um pessimista antropológico radical, admirador da República Romana e dos seus ideais de patria et libertas, escreveria para a instrução do Príncipe um receituário hiper-realista, pronto a servir para........
