Não há homens providenciais, apenas políticos profissionais
Até que enfim, a eleição presidencial terminou. Confesso o meu alívio por finalmente termos chegado ao fim deste processo eleitoral. Tivemos ainda o espectáculo do chamado “Circo Antifascista”, promovido em grande pela esquerda. Inundados de artigos em apoio a José Seguro, fomos sucessivamente bombardeados com títulos do género: “Porque apoio José Seguro”, “A escolha democrática e segura face à aventura”, “A democracia segura face ao populismo extremista”, “Seguro, uma escolha lógica”. Chega — sem trocadilhos — de eleições. No final, registou-se uma participação baixa; de facto, os portugueses já não acreditam nas elites políticas.
Como seria de esperar, venceu o senhor José Seguro. Toda a gente sabia quem iria ganhar; tanto assim é que, ainda antes de conhecidos os resultados, já circulavam artigos a enaltecer o “novo Presidente” e a explicar por que razão José Seguro seria um bom chefe de Estado. Creio que nem André Ventura alimentava a expectativa de um milagre. No máximo, poderia ambicionar um resultado acima dos 40%, ou pelo menos superior ao do PSD, mas nem isso aconteceu. Se existem casas de apostas onde se podia apostar sobre o vencedor da segunda volta da presidencial portuguesa (será que há?), creio que quem apostou não deve ter ganho muito dinheiro com a aposta. Tal como noutros países ocidentais, chegar à segunda volta frente a um candidato rotulado de direita radical é, quase sempre, meio caminho andado para vencer a eleição presidencial — veja-se Emmanuel Macron em 2017 e novamente em 2022. Ao ouvir o discurso de José Seguro — permito-me sugerir, a quem sofra de insónias, que experimente três horas das suas intervenções para testar a eficácia soporífica —, dei por mim a pensar que, afinal, esta terá sido a melhor escolha possível. Porquê? Porque reflecte fielmente o tempo em que vivemos…
Vivemos, sem grande margem para dúvida, um verdadeiro fin de règne — perdoem-me o galicismo, mas não encontro expressão portuguesa que traduza com igual precisão o meu sentimento — da III República Portuguesa. O regime de tipo parlamentarista partidário burguês dá sinais evidentes de desgaste. E, se o sistema escolheu José Seguro como seu próprio campeão, isso é, para mim, sinal de que assistimos ao crepúsculo de um ciclo histórico: as ditas elites já se encontram sem fôlego, sem energia e, sobretudo, sem uma figura verdadeiramente grande que consiga inverter o rumo dos acontecimentos. Se o regime da III República vier a ceder, não será com estrondo, mas antes como um petardo molhado — um discreto e triste plouf. Quando chegará a queda final? Provavelmente não virá de dentro, mas de fora, quando as outras nações europeias — eu aposto em França ou no Reino Unido — chegarem a um ponto de tensão social que as leve à explosão.
O novo presidente é, em si mesmo, um exemplo de quão desprovidas de grandes figuras se encontram hoje as elites ocidentais. Em França, o campeão do sistema foi Emmanuel Macron — após, segundo intelectuais como Michel Onfray, ter ocorrido um quase golpe de Estado por parte de magistrados e de certos órgãos de comunicação social, que fabricaram um caso ridículo para destruir a candidatura de François Fillon, demasiado conservador, patriota e crítico das elites em Bruxelas — e todos vemos o resultado: tornou-se um dos presidentes mais impopulares da história recente do país. A França encontra-se profundamente endividada; certos bairros, em grandes e pequenas cidades, estão cada vez mais islamizados; as máfias estrangeiras tornaram-se progressivamente mais violentas, ao ponto de a própria polícia francesa falar numa “mexicanização” do território; e algumas das melhores empresas tecnológicas francesas foram alvo de aquisições agressivas por parte de grupos americanos, sem que Macron as tivesse protegido.
Em Espanha, graças ao chamado circo antifascista, o sistema promoveu Pedro Sánchez, provavelmente o primeiro-ministro mais contestado dos últimos tempos, que acaba de anunciar a legalização de 500 mil imigrantes em situação irregular. Segundo o que tem sido noticiado, muitos destes não terão de apresentar provas de que não cometeram crimes........
