Resíduos: uma nova fonte de matérias-primas
Quando a pandemia de COVID-19 expôs as fragilidades das cadeias de produção globais, poucos imaginaram que estávamos apenas a começar a compreender a dimensão da vulnerabilidade europeia. Dois anos depois, a invasão russa da Ucrânia evidenciou, ainda mais, as profundas dependências externas nos mais diversos setores. Quando a guerra voltou às fronteiras da União Europeia (UE), percebemos que os Estados-Membros não possuíam a capacidade industrial necessária para proteger e defender a sua população. Pior: ao planear o que precisava de fazer para reconstruir essa capacidade, a UE descobriu que, também, não controlamos os materiais indispensáveis para o fazer.
Esta triste constatação, que foi mais uma vez tardia, teve, necessariamente, consequências diretas para sectores que pareciam distantes da área da segurança e da defesa europeias, sendo um bom exemplo o setor dos resíduos. Mas, cada dificuldade, significa, igualmente, uma oportunidade.
Nas últimas décadas, os resíduos têm sido examinados como uma matéria, exclusivamente, de política ambiental, constituindo um encargo para as finanças de quem os tem de recolher e tratar. No entanto, quando se analisam os números referentes à dependência europeia, em termos de matérias-primas, percebe-se por que razão esse enquadramento está a mudar radicalmente, dado o valor estratégico e o contributo económico e de aprovisionamento que os resíduos podem alcançar. Para 30 dos 34 materiais considerados críticos pela UE (Lista das matérias-primas críticas, Anexo II do Regulamento Europeu Matérias-Primas Críticas), a dependência de fornecedores externos ultrapassa os 65%, sendo que, em 3 materiais, a UE está muito ou totalmente condicionada a um único país fornecedor. No caso de certas terras raras pesadas, fundamentais para a tecnologia militar avançada, essa dependência é de 100%, relativamente à China. No caso do boro, fundamental para várias atividades económicas como, por exemplo, na produção de turbinas eólicas, vibra de vidro, polímeros e cerâmicas, na indústria química, na indústria farmacêutica e na agricultura, a UE está dependente em 98% da Turquia. No caso da platina, utilizada em conversores catalíticos, equipamentos laboratoriais, equipamentos elétricos e eletrónicos, termorresistências, na medicina dentária e na joalharia, a África do Sul abastece 71 % das necessidades da UE.
Face a este contexto, o setor dos resíduos deve assumir um papel fundamental enquanto fonte alternativa de matérias-primas, reduzindo a dependência de países terceiros e gerando mais-valias. Assim, podemos começar por assumir que os resíduos elétricos e eletrónicos são os que possuem um maior potencial, dos quais podemos extrair terras raras, tais como neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy), térbio (Tb), utilizados em motores elétricos, imanes permanentes e turbinas usados, bem como podemos extrair cobalto (Co), lítio (Li) e níquel (Ni) de baterias usadas, retiramos gálio (Ga) de semicondutores e de LED, extraímos germânio (Ge) de fibras óticas e de painéis solares, recuperamos tântalo (Ta) de condensadores, encontramos nióbio (Nb) em superligas e eletrónica de alta performance, assim como encontramos Índio (In) em telas LCD e em painéis fotovoltaicos e os metais preciosos, ouro (Au), prata (Ag) e Platina (Pt), estão presentes em placas eletrónicas e conectores........
