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O Dia de Partilha entre Portugal e os Judeus

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No primeiro domingo de setembro, ao longo do dia, as principais instituições religiosas e culturais da Comunidade Judaica do Porto (CIP/CJP) estarão abertas à população em geral. As visitas gratuitas incidem sobre o maior templo judaico do país, o museu judaico, o museu do Holocausto, a biblioteca Rosh Pinah com 10 mil obras, as salas de cinema comunitário com filmes de história de produção própria, a galeria de pintura, a garrafeira de vinho do Porto kosher, e mais ainda, num programa igualmente recheado de conferências de bom nível e actuações do coro Mekor Haim.

A comunidade anfitriã é líder mundial em sede de promoção da cultura judaica, algo estranho num país como Portugal. Embora cidades como Nova Iorque, Telavive ou Paris tenham “mais” em termos absolutos, os equipamentos culturais ali observados são geridos por dezenas de instituições especializadas, não estão conglomerados numa só organização.

O Dia Europeu da Cultura Judaica, marcado por eventos simbólicos em todas as grandes cidades europeias, pode bem ser designado, em Portugal, de Dia da Partilha entre os judeus e os portugueses em geral. Assinalamos em artigo anterior, publicado em 2025, que o evento anual celebrado no Porto, o mais completo do género no continente, permite uma identificação do grande público com a comunidade judaica nacional, um sentimento de comunhão ancestral, a celebração de uma identidade colectiva que toca a alma nacional. A afamada Civilização Judaico-Cristã teve como baluarte o país fundado por Dom Afonso Henriques, mais tarde transformado em Império científico e militar, por força do trabalho conjunto e de uma axiologia partilhada entre elites católicas e judaicas.

No debate moderno ao redor do mundo, dificilmente se encontra uma história nacional tão subestimada como a de Portugal, com a agravante de que o problema começa em terras lusas. Em décadas recentes, assistiu-se a uma consistente cegueira historiográfica e política que procurou rever o passado da nação sob um prisma transformador. Feitos considerados heróicos por séculos, incluindo durante a Primeira República, tornaram-se marcos de opressão, colonialismo e violações de direitos humanos. O bom tornou-se mal e, quantas vezes, o mal passou a bom. Desta guerra cultural – e guerra é realmente a palavra adequada – resultou que a comunidade judaica e a população portuguesa mais tradicionalista, que a bem da verdade é a grossa maioria, passaram a ser vistas como anacronismos ideológicos. É uma perspectiva. A CIP/CJP tem outra. Medeiam sete séculos entre o Tratado de Zamora e a publicação do primeiro volume de “O Capital”, de Karl Marx, que fez nascer Eduard Bernstein e todo um sem número de orgulhosos continuadores até hoje.

A história quase milenar de Portugal e os contributos do Povo do Livro desde os tempos de Yaish ben Yahia e da sua estirpe, nunca deixam de entusiasmar os jovens judeus quando iniciam os seus primeiros anos de aprendizagem para uma vida útil. Quem tem contacto com a realidade judaica mundial não desconhece que as comunidades tendem a enfatizar os contributos dos seus maiores, nas nações onde viveram, como forma de garantir referências sólidas e de preservação identitária. A antiga história de Portugal é muito respeitada pela comunidade judaica, pelos resultados alcançados, apesar de nem tudo terem sido rosas durante os quase quatrocentos anos de parceria entre católicos e judeus portugueses. Para o Judeu, o tabuleiro da vida é observado no seu conjunto. A vida não serve para perder tempo a promover injustiças, invejas, vaidades e lepras da boca hoje tornadas profissões.

Quando terminou aquela união histórica fundadora da nação e foram postas a correr as elites da ciência e da economia, o país ficou destinado a não mais ser o mesmo. Outros impérios concorrentes surgiram, casos do britânico, neerlandês e otomano, povoados da seiva judaica portuguesa. A aventura de Dom Sebastião em Alcácer Quibir foi apenas mais um desastre. Nunca os conselheiros judeus de outrora teriam subscrito a necessidade daquela invasão, que fez tombar a nobreza nacional, ao ponto de Portugal ter perdido a independência e quase se ter transformado num país de senhoras. Poupamos o leitor aos detalhes que antecederam a batalha do Norte de Marrocos, mas não custa referir que um grande número de judeus........

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