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Mulheres improváveis

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Escrever sobre feminismo sem repetir o catecismo aprovado é, nos dias de hoje, um desporto de alto risco. Não por falta de argumentos, mas porque a nova ortodoxia funciona exactamente como as antigas: quem discorda não está errado, está doente; ou, na versão actualizada, é um privilegiado, “melhor” ainda, é fóbico. Ou simplesmente cancelado, que é a versão moderna da fogueira da caça às bruxas.

Pois bem. Vamos arriscar.

Há uma ironia magnífica no centro do feminismo contemporâneo dominante que os seus sacerdotes parecem ter decidido ignorar em uníssono. O movimento que diz defender as mulheres é o mesmo que, a sério, recusa defini-las. Quando a juíza Ketanji Brown Jackson, durante a sua audiência no Supremo Tribunal americano, declarou não poder definir “mulher” porque “não é bióloga”, não estava a ser cuidadosa. Estava a ser reveladora. Se não conseguimos definir o sujeito, como defendemos os seus direitos?

Olympe de Gouges, em 1791, escreveu a Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne sabendo muito bem o que era, e o que queria. Foi decapitada pela mesma Revolução que prometia libertar todos os homens e isto devia........

© Observador