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Trabalhar em rede para proteger as crianças

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13.02.2026

A alienação parental não é um problema simples, nem surge de um momento para o outro. É uma situação que se constrói aos poucos, muitas vezes de forma silenciosa. Aparece nas pequenas frases repetidas, nas críticas constantes, nos silêncios prolongados e na forma como a criança é colocada no meio do conflito entre os pais. Por isso, não pode ser resolvida com uma única decisão, nem com a intervenção isolada de um profissional.

Para intervir de forma eficaz, é fundamental trabalhar em rede e adotar um olhar sistémico sobre cada caso.

Um olhar sistémico implica reconhecer que a criança não vive isolada, mas inserida numa rede de relações familiares onde todos se influenciam mutuamente. Quando existe tensão entre os pais, essa tensão não fica limitada aos adultos, atravessa o ambiente familiar e chega inevitavelmente à criança. Esta pode aproximar-se mais de um dos pais, afastar-se do outro para evitar conflitos ou até reproduzir discursos que ouve em casa. Estes comportamentos não surgem por acaso; são respostas ao contexto relacional em que vive.

É precisamente por isso que o trabalho em rede se torna essencial. Para compreender verdadeiramente o que está a acontecer, é necessário juntar diferentes olhares e competências.

Trabalhar em rede significa que diferentes áreas, como a justiça, a saúde e a educação, comunicam entre si e partilham uma compreensão comum das situações. Como cada uma só vê uma parte da realidade da criança, nenhuma consegue, sozinha, ter uma visão integrada e completa.

A justiça, por exemplo, é muitas vezes a última instância onde se tomam as decisões que têm impacto direto na regulação da parentalidade e vida da criança. Por isso, é essencial que essas decisões considerem não apenas os factos jurídicos apresentados, mas também os pareceres sobre o contexto emocional e relacional da família. Uma medida mal fundamentada pode, mesmo sem intenção, reforçar o afastamento entre a criança e um dos pais.

Na área da saúde, psicólogos e outros profissionais avaliam o bem-estar emocional da criança. O que a criança sente e pensa começa por ser conhecido através do que ela expressa nas suas palavras, mas é igualmente importante compreender o contexto em que essas palavras surgem. É necessário perceber que pressões pode estar a viver e que papel essas emoções ocupam no conflito familiar. O objetivo é criar espaços seguros onde a criança possa falar livremente sobre o que sente, sem medo, sem culpa e sem receio de desiludir nenhum dos pais.

A escola também tem um papel importante. Os professores acompanham a criança diariamente e conseguem identificar mudanças de comportamento, ansiedade ou tristeza. Com o seu olhar atento, podem ajudar a sinalizar dificuldades e colaborar com os outros profissionais.

Quando estas áreas intervêm de forma isolada, sem comunicação entre si, aumenta o risco de surgirem leituras diferentes da mesma situação. Cada profissional observa apenas uma parte da realidade e pode chegar a conclusões distintas. Por exemplo, um técnico pode entender que a recusa da criança em estar com um dos pais é uma decisão autónoma e consciente. Outro pode identificar sinais de pressão emocional, medo ou influência indireta.

Se estas análises não forem partilhadas e discutidas em conjunto, as decisões podem tornar-se contraditórias. Uma medida pode reforçar a ideia de afastamento, enquanto outra tenta promover a aproximação. Esta falta de coerência gera instabilidade, prolonga o conflito e dificulta a reconstrução dos vínculos.

Sem articulação entre os profissionais, a intervenção perde consistência e direção. E, no meio destas divergências, quem mais sofre é a criança, que continua exposta ao conflito, sem respostas claras e sem uma estratégia verdadeiramente orientada para o seu bem-estar.

Por isso, é essencial reforçar a proximidade entre os profissionais intervenientes e apostar numa verdadeira cooperação interdisciplinar. Resolver conflitos parentais exige que todos os profissionais envolvidos assumam a sua responsabilidade na construção conjunta de soluções. Psicólogos, professores, advogados, médicos e outros técnicos devem trabalhar de forma articulada, com respeito pelo papel de cada um, mas com um objetivo comum: o bem-estar da criança.

Esta cooperação implica disponibilidade para dialogar, partilhar informação relevante e definir estratégias conjuntas. Pode envolver o acompanhamento dos pais aos serviços onde os conflitos estão a ser tratados, como estruturas de proteção, consultas especializadas ou contextos escolares, promovendo uma atuação coordenada e coerente.

As parcerias mais eficazes são abrangentes e flexíveis. Abrangentes porque não se centram apenas num problema isolado, mas procuram compreender a complexidade das situações familiares. Flexíveis porque se adaptam à realidade concreta de cada caso, respeitando as necessidades, prioridades e especificidades de cada família.

Trabalhar em rede não significa dividir responsabilidades, mas multiplicar competências. Significa reconhecer que a proteção da criança é uma tarefa coletiva. Quando a cooperação, a comunicação e a coordenação estão presentes na intervenção, aumentam as possibilidades de reconstruir os vínculos e de promover relações familiares mais saudáveis.

No centro da intervenção deve estar sempre a criança. Mais do que resolver o conflito entre adultos, importa garantir que esta possa crescer com estabilidade emocional, segurança e desenvolver relações significativas, sempre que isso seja possível e saudável.

Mas é igualmente importante reconhecer que nem sempre é possível manter ou reconstruir todos os vínculos da mesma forma. Há situações em que persistem níveis elevados de conflito, comportamentos abusivos ou dinâmicas que colocam em risco o bem-estar da criança. Nesses casos, a prioridade continua a ser a proteção e a segurança emocional.

Quando não é possível restabelecer um equilíbrio relacional imediato, a intervenção deve concentrar-se em reduzir o impacto do conflito na vida da criança. Isso pode significar ajustar contactos, criar enquadramentos mais protegidos ou reforçar o acompanhamento técnico. O essencial é que a criança não seja exposta a pressões, manipulações ou situações que comprometam o seu desenvolvimento.

Proteger a criança não significa desistir de promover os vínculos, mas reconhecer os limites da realidade concreta. Significa agir com prudência, avaliar continuamente os riscos e adaptar as decisões às circunstâncias. Mesmo quando a relação entre os adultos permanece difícil, é possível, e necessário, criar condições para que a criança cresça com o máximo de estabilidade e previsibilidade possível.

Em qualquer cenário, a referência deve ser sempre a mesma, a criança, acima das disputas, das mágoas e das estratégias dos adultos.

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