Quando o conflito entre os pais e os filhos ficam doentes
No meu trabalho diário com crianças e adolescentes, encontro frequentemente sinais de sofrimento que não podem ser compreendidos apenas como problemas individuais. Tristeza persistente, ansiedade, dificuldades de comportamento ou problemas na escola surgem, muitas vezes, em contextos familiares marcados por conflitos intensos entre os pais. A experiência mostra-nos algo essencial, em muitos destes casos, a criança não adoece sozinha, adoece no meio de um conflito entre os pais.
Recordo-me, por exemplo, do caso de uma criança de oito anos que me foi encaminhada com a queixa de dificuldades escolares e crises de ansiedade. A avaliação inicial apontava para problemas de concentração. No entanto, à medida que o acompanhamento avançava, tornava-se claro que ela vivia num conflito parental permanente, sendo diariamente exposta a ouvir as críticas mútuas, as mensagens contraditórias e as tentativas de a colocar contra um dos pais. O sofrimento que surgia na escola não era um problema isolado, mas uma resposta a um ambiente familiar instável.
Quando uma criança mostra sinais de sofrimento, é comum perguntar o que se passa com ela. No entanto, muitas vezes é mais importante perguntar em que ambiente familiar essa criança está a crescer.
Nos conflitos parentais prolongados, especialmente em situações de alienação parental, o sofrimento infantil raramente surge isoladamente. Ele nasce, quase sempre, no interior de relações familiares marcadas por uma tensão constante, disputas, desequilíbrios de poder e dificuldades em comunicar de uma forma saudável.
Em muitos casos, este sofrimento não surge apenas na forma de tristeza ou ansiedade. Surge também através de queixas físicas. São crianças que se queixam repetidamente de dores de barriga, dores de cabeça, náuseas, vómitos, cansaço extremo........
