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Todos os dias

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17.04.2026

“Primeiro, entende o que funciona para ti”, aconselhava Toni Morrison aos alunos de escrita: percebe se a manhã é mais propícia para escrever, ou se preferes escrever durante a tarde, ou de noite. Se escreves melhor deitada, sentada à mesa, ou no chão, à janela, ou virada para a parede, com luz natural ou artificial. Escrever implica que conheçamos o que funciona para nós. Convém à escrita frequente o ritual e a repetição.

Primeiro é difícil, a disciplina requer esforço. Quando se torna segunda natureza, difícil é viver sem essa respiração contínua. Se por alguma razão a rotina é impedida, por causas práticas ou biológicas, quando se atravessa um bloqueio, seja espiritual, mental, físico ou outro, alguma coisa fica em suspenso e agoniza.

Desde que escrevo e publico, já atravessei vários períodos de silêncio, em que vou aprendendo a lidar com a vida sem a escrita. Viver torna-se mais duro, se não sou capaz de escrever. Não ser capaz de escrever é análogo a estar doente. Vou contemplando este modo de viver, em que alguma coisa escreve em mim, tornado esse o meu modo de me relacionar comigo e com os outros. Experimento as dores do ofício, os perigos da atenção excessiva às palavras, o gradual desajustamento em relação às coisas. Por vezes, quase a dormir, as frases do dia ainda me atravessam o espírito, como cometas. Quero a cabeça vazia, mas estou tomada por um universo imperioso e autoritário.

Penso nesta vida, pouco mais que inútil, e nas pessoas que criei e me acompanham. Vieram mais ao meu mundo pessoal do que ao mundo dos outros. Sou eu que tenho saudades delas. É a mim que me fazem companhia. A estação da escrita de um livro é torrencial e quase sempre breve. A etapa das revisões infinitas só termina quando as palavras já não querem dizer nada e se tornaram som, ou brincadeira, obscenidade. Quando imaginei que gostava de ser escritora, desde muito cedo, nutria a fantasia de uma ocupação que envelhecesse bem, como certos vinhos e certos nomes próprios. Vejo agora que a parte mais difícil é precisamente envelhecer. Escreve-se contra o silêncio, contra a indiferença, contra as forças contrárias. Felizmente, cada vez são mais raros e mais puros os momentos em que estou realmente a escrever e não a rabiscar. Cada vez é mais raro e intenso quando me sinto num canal transparente no fundo do mar. Ou a ser atravessada por dentro por água que me lava. Penso que crio pessoas que não existem para partilhar com elas a alegria da descoberta desta maneira de ser feliz. É também com elas que vou vivendo a minha vida.

Algumas pessoas parecem adaptar-se com facilidade espantosa à realidade circundante. O presente cabe-lhes como uma luva. Não parece haver atrito entre o que são e o modo como o mundo e a vida em sociedade se organizam. Falam a mesma língua que falam as coisas à nossa volta. Outras pessoas adaptam-se dificilmente. Estão desarrumadas. Lutam para encontrar o sentido e encontram-no em miniaturas. Vivem no pêndulo de achar o mundo um lugar horrendo e a única fonte de maravilhas. Recolhem aos contentamentos da imaginação.

Como praticar o princípio cristão de amar o próximo como a nós mesmos num lugar tão feio? — pergunto-me a cada passo.

Caminho pela rua enquanto trauteio canções. Ando pela cidade à espreita da alegria. Todos os dias alguma coisa muito pequena, ou alguma pessoa, me espanta.

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