Regresso
Chego a casa depois de me ter perdido e pensando que não tinha uma casa. Mas não somos nós que reclamamos os lugares, são eles que nos reclamam.
Na infância, olhava com espanto e alguma inveja para as pessoas que, nas férias, iam para a terra. Chamavam-lhe assim: terra. E depois voltavam e traziam caixas de fruta e hortaliças, que repartiam pela família e pelos vizinhos, bolos de mel e canela, frascos de geleia de marmelo.
Caminho pela rua e observo o lixo pelo chão: beatas, latas pisadas, sobras de uma obra, ninguém o apanha. Vou atenta às faces que passam por mim: castiças, doces e rudes, um senhor tisnado, talvez pescador, fuma com urgência uma cigarrilha, a senhora que passou, de sobretudo preto, tinha tatuado no pescoço um código de barras. Não conheço ninguém e, contudo, sou daqui.
É libertador ninguém........
