A IA não torna a igualdade irrelevante
Há uma frase que resume bem uma tentação recorrente no entusiasmo tecnológico: a ideia de que a inteligência artificial, não resolvendo o gender gap, poderá torná-lo irrelevante. Foi essa a hipótese defendida recentemente aqui no Observador.
É uma hipótese interessante. Também é fundamentalmente enganadora. E o mais preocupante é que quem a defende parece não perceber porquê. E, precisamente por isso, merece ser discutida com cuidado.
Porque é parte de uma verdade parcial: a IA está, de facto, a mudar o trabalho, as competências valorizadas e a forma como produzimos. Mas a autora chega depressa demais a uma conclusão que a tecnologia, por si só, não pode garantir: confunde mudança tecnológica com progresso social. A inovação pode alterar processos, mas não elimina, por si só, os preconceitos, os enviesamentos ou as desigualdades que lhes dão origem.
A IA tem potencial para democratizar o acesso ao conhecimento, acelerar a produtividade e reduzir algumas barreiras. Mas uma tecnologia não substitui uma política de inclusão. Se os sistemas continuam a refletir os mesmos desequilíbrios, a inovação apenas os torna mais rápidos e mais difíceis de detetar. E aqui, o problema está em confundir essa potencialidade com uma forma automática de justiça.
A questão deixa de ser, portanto, apenas tecnológica e passa a ser social, política e moral. A desigualdade de género não resulta apenas de falta de competências ou de acesso à informação. Resulta da forma como as sociedades distribuem tempo, confiança, autoridade, recursos, oportunidades e poder de decisão. Nenhuma tecnologia, por mais transformadora que seja, entra num mundo vazio.........
