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Muita politiquice, pouca política

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09.09.2026

Há uma palavra que praticamente desapareceu do vocabulário político português e que nos faz mais falta do que todas as outras: bom senso.

Convém começar por dizer o que ela não é, porque anda mal acompanhada. Bom senso não é centrismo, não é moderação de temperamento, não é aquela ideia preguiçosa de que todos têm um pouco de razão e de que a virtude mora sempre a meio caminho entre duas posições. Não é ser morno. Não é a ausência de convicções, nem sequer a sua suspensão educada.

Bom senso é aquilo a que Aristóteles chamava prudência, e a prudência tem uma característica que hoje se esqueceu: pressupõe um fim. É a virtude de escolher bem os meios para chegar a um sítio onde já se decidiu chegar. Quem não sabe para onde vai não pode ser prudente. Pode, quando muito, ser indeciso, hesitante, oportunista, todas coisas diferentes. A prudência mede a distância entre o princípio e a circunstância, e por isso precisa das duas pontas. Sem princípio, não há nada para medir.

Daqui decorre uma tese que é contra-intuitiva e que é a única coisa que verdadeiramente quero defender neste texto. A falta de bom senso da política portuguesa não vem de excesso de ideologia. Vem exactamente do contrário. Perdemos as doutrinas e, com elas, perdemos a capacidade de hierarquizar, que é a operação mais elementar do juízo político. Quando tudo é igualmente importante, nada é importante, e o que sobra para decidir a agenda de um país é o ruído da semana.

Antes de continuar, declaro o que sou, porque quem escreve sobre doutrinas alheias tem a obrigação elementar de dizer qual é a sua.

Sou liberal social. Progressista nos costumes, porque não compete ao Estado, nem a mim, decidir como é que cada pessoa adulta organiza a sua vida, o seu corpo, a sua família ou a sua fé. Liberal na economia, porque não conheço nenhum mecanismo que tenha tirado tanta gente da pobreza como mercados abertos e concorrenciais, e porque desconfio por princípio de qualquer poder concentrado, seja ele público ou privado. E exigente com o Estado precisamente nas poucas funções que só ele pode cumprir, e que cumpre mal.

Dito isto, permitam-me a confissão que se segue: tenho saudades de ter adversários com doutrina.

A social-democracia europeia foi uma coisa séria. Nasceu de uma revisão intelectual corajosa, a de Bernstein, que teve a coragem de dizer aos seus que a revolução não vinha e que era preciso reformar o capitalismo em vez de esperar pelo seu colapso. Consolidou-se no compromisso do pós-guerra, com uma tese perfeitamente arrumada sobre o mundo: o mercado gera riqueza mas também desigualdade, o Estado corrige essa desigualdade através da redistribuição e de serviços universais, e o crescimento económico paga a factura. Eu discordo de boa parte disto. Mas era um edifício com fundações, com autores, com congressos onde se discutiam ideias e não lugares, e com uma consequência prática decisiva: quem acreditava naquilo sabia o que era prioritário e o que não era.

O liberalismo social tinha outra construção, igualmente coerente, que vem do Stuart Mill tardio e passa por Hobhouse e por Beveridge: a liberdade formal vale pouco a quem não tem condições reais para a exercer, e cabe ao Estado garantir esse mínimo para que a autonomia individual seja algo mais do que uma abstracção jurídica. Também aqui havia argumento, e argumento a que era preciso responder com trabalho e não com um tweet. É a minha família política. É também, das duas, a que está........

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