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Nós, os antigos de amanhã

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21.10.2026

1. Preocupa-nos, hoje, muito mais aquilo que havemos de deixar às gerações futuras do que aquilo que recebemos das gerações passadas. O “legado”! Palavra bonita, lustrosa, muito própria para congressos, discursos de encerramento, entrevistas de gente importante e outras cerimónias onde cada um vai tratando antecipadamente da sua pequena imortalidade. Que deixaremos aos nossos filhos? Que planeta? Que escola? Que democracia? Que mundo? Perguntas justas. Mas há uma outra, anterior, bastante menos simpática: que fizemos nós daquilo que nos deixaram?

Aqui começa o incómodo. Porque falar do “legado” coloca-nos na posição confortável de benfeitores do futuro. Já nos imaginamos, mortos e compostos, num qualquer retrato a preto e branco, enquanto alguém, daqui a cinquenta anos, recorda enternecido quanto fizemos pelos vindouros. Herdar é outra coisa. Herdar é receber a casa com o telhado a meter água, os móveis bons, a loiça rachada, as dívidas que não fizemos e, às vezes, um retrato do Avô de quem ninguém gostava, mas que, vá-se lá saber porquê, continua pendurado na sala.

Não começámos o mundo. É talvez esta a notícia mais difícil de dar ao homem contemporâneo. Quando chegámos já cá estava quase tudo: a língua, os livros, as leis, os cemitérios, as igrejas, as revoluções, os erros, as descobertas, a tabuada, Camões, Auschwitz, a penicilina, os pecados dos nossos Avós e a extraordinária capacidade humana de repetir disparates antigos convencida de que acaba de os inventar. Nascer é chegar tarde. Felizmente.

2. Nenhum de nós é culpado pelo que aconteceu antes de nascer. Evidentemente. Mas como vivemos num tempo em que até a evidência precisa de manual de instruções, convém dizê-lo: culpa e responsabilidade........

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