A Guia para a utilização de linguagem inclusiva da NOVA
A polémica já tem um tempo, e a guia (reparem que eu uso o feminino) ainda mais. Talvez não seja um problema: poderia até ter sido uma benção, em primeiro lugar, porque já teria havido tempo para acabar com esta tontice, em segundo, porque permite dar conta do processo todo.
E o processo é o seguinte: há uns tempos, alguém reparou que a Universidade Nova de Lisboa, inclusiva para tudo menos para o inglês da SBE, tinha uma Guia para a utilização de linguagem inclusiva. Ouviu-se um pequeno sururu, foram entrevistadas eminências (também feminino, e para uma palavra que significa importante) que se apressaram a garantir que nada daquilo era obrigatório, e até o Polígrafo montou uma peça sobre o documento.
A primeira parte engraçada é origami em que o Polígrafo conseguiu transformar o papel, para conseguir apontar a setinha para o falso. Em vez de tratar de saber se a guia é falsa ou verdadeira, pegou numa palavra específica – “todes”, que na verdade não é bem uma palavra, mas uma variação açoriana de outras duas – para acalmar as hostes e garantir que esta não aparece na dita guia; depois, assegura também que a guia não é obrigatória e consegue a proeza de transformar uma verdade incontestável (a existência de uma guia de linguagem inclusiva) numa falsidade, através da mudança da pergunta para qualquer coisa que ninguém perguntou. Imagine o leitor que lhe acontece o que me aconteceu a mim: aterra-lhe no whatsapp um documento que, depois de garimpar por entre emojis zangados, vê que tem o nome “Guia para a utilização de linguagem inclusiva”. Pergunta “será o guia (agora uso o masculino para me mostrar arejado e utilizador de palavras intersexo) verdadeiro?”, ou pergunta “será a guia obrigatória?”. O Polígrafo, pelos vistos, preocupa-se mais com a liberdade do que com a verdade: há toda uma filosofia política aqui subentendida.
A parte mais engraçada, contudo, não é a pirueta interpretativa; é o próprio documento. A Universidade Nova decidiu distribuir pelos alunos, docentes, funcionários e quem mais a quisesse ouvir um pequeno manual de instruções de relações humanas e, como a Universidade lhe chama, “comunicação institucional”. Percebe-se que uma Universidade se preocupe com quem por lá anda; percebe-se que uma universidade se preocupe com o que os alunos escrevem e dizem; não se percebe que uma universidade preocupada com estas coisas lavre um documento tão ridículo.
A grande preocupação da Universidade (que, tem uma longa tradição de combate à discriminação, já que recusou desde o princípio, brava e pioneiramente, chamar-se Universidada ou Universidado) é a de promover uma “cultura de respeito, compreensão e inclusão” em toda a universidade, mesmo que para isso tenha de tornar todas as conversas incompreensíveis e de se sujeitar a perder todo o respeito de qualquer pessoa sensata. Para conseguir tão nobre objectivo, espreme das mais superiores cabeças do país vinte páginas de “alternativas ao uso dos masculinos genéricos” e “sugestões e técnicas” para assegurar a inclusão de todas as pessoas nos documentos, como se a inclusão se conseguisse com truques, e a tolerância e inclusão deixassem de ser matéria de comportamentos e mentalidades, mas........
