Exames nacionais: ninguém testou a bomba antes de a rebentar
Quando avalio um projeto público de risco elevado, tento sempre fazer duas perguntas antes de olhar para orçamento ou prazo: quantas coisas mudam ao mesmo tempo, e quanta folga existe entre elas para um erro não se propagar ao resto do sistema. Na ciência da segurança organizacional chama-se a isto um “acidente normal”: muitas peças a interagir de forma imprevista, zero margem entre elas, uma falha que contamina de imediato as vizinhas. Deixa de ser azar. Passa a ser matemática.
Não é preciso ir longe para ver isto em ação. Em outubro de 2025, quando entrou em vigor, ao mesmo tempo em 29 países, o novo sistema europeu de controlo biométrico de fronteiras, o Aeroporto de Lisboa ficou com filas de quatro horas e o assunto continua por resolver, meses depois. Ninguém testou se a infraestrutura aguentava o volume real de passageiros antes de desligar, de um dia para o outro, o controlo manual em todo o continente.
Traduzido para quem passou semanas sem saber se o filho ia entrar na faculdade que queria: isto não foi azar individual, foi a consequência previsível de um desenho que a ciência do risco já sabia ser perigoso. E há uma diferença que agrava o caso português: o aeroporto, ao fim de horas, deixa entrar os passageiros. Uma nota corrigida depois de o prazo de candidatura já ter fechado não tem esse “entra mais tarde”, é irreversível de uma forma que uma fila de........
