O Partido da Guerra Limitada — desde que seja Infinita
Há uma espécie curiosa que floresce nos salões ocidentais. Não veste uniforme, não conhece o cheiro da pólvora, não escuta o ruído das sirenes, mas nunca perde uma batalha no papel. Habita colunas de jornais, estúdios de televisão e gabinetes climatizados, onde as guerras são sempre limpas, as revoluções democráticas estão sempre iminentes e os povos estrangeiros obedecem, com tocante disciplina, ao guião escrito nas capitais europeias.
Esta espécie possui uma qualidade extraordinária: consegue condenar simultaneamente uma guerra por ir longe de mais e por não ir longe o suficiente.
Se Trump bombardeia o Irão, é irresponsável. Fez subir o preço do petróleo, alimentou a inflação, perturbou os mercados e traiu a promessa de evitar novas guerras.
Se interrompe a campanha antes de derrubar o regime, é cobarde. Desperdiçou uma oportunidade histórica, deixou o trabalho por concluir, salvou a República Islâmica e enfraqueceu o Ocidente.
Se evita outra guerra interminável no Médio Oriente, falta-lhe coragem estratégica.
Se a prolonga, reincide no velho imperialismo americano.
O veredicto permanece.
Há qualquer coisa de profundamente bulgakoviana nesta lógica. Recorda o burocrata soviético que condenava um cidadão por chegar atrasado ao trabalho e, no dia seguinte, pelo crime de chegar cedo de mais. O problema nunca era o relógio.
No caso presente, o problema raramente é a estratégia.
Mas esta crítica revela uma obsessão mais antiga e mais profunda. Muitos comentadores continuam prisioneiros do grande mito da política externa ocidental: a convicção quase religiosa de que existe sempre uma democracia liberal pronta a nascer, desde que alguém lance mais algumas bombas.
Foi-nos prometida em Bagdade.
Foi-nos prometida em Cabul.
Foi-nos prometida em Trípoli.
Agora espera-se por ela em Teerão.
A revolução chega sempre na próxima semana.
Entretanto passam-se décadas.
Talvez seja apenas uma impressão, mas Portugal vive uma inesperada primavera clausewitziana. Nunca se viram tantos estrategas militares por metro quadrado. Há especialistas em supremacia aérea, campanhas de interdição, escalada horizontal, centros........
