Quem somos?
Há uma ferida que a espécie nunca tratou. Não por falta de inteligência, mas porque a ferida é a própria espécie.
O ser humano é o único animal que sabe que vai morrer e constrói, a partir dessa certeza, pirâmides, catedrais, poemas, religiões, impérios, filosofias e tecnologias. Tudo o que a humanidade edificou é, na sua raiz mais honesta, uma negociação com a extinção pessoal. Ernest Becker chamou-lhe “o terror da morte como motor da cultura”. Mas é mais do que isso: é o terror de ter existido sem saber porquê.
Nenhuma outra espécie carrega este peso. O polvo resolve problemas com nove cérebros distribuídos pelo corpo sem nunca ter perguntado o que é. O corvo usa ferramentas sem ter inventado a teologia para justificar o facto de as usar. Apenas o Homo sapiens acordou um dia com a consciência de si próprio e ficou paralisado perante a pergunta que esse acordar gerou.
E a resposta que deu a essa pergunta foi sempre a mesma, sob mil formas diferentes: inventou um sentido exterior a si próprio. Um deus, uma nação, uma classe, um progresso, uma raça, um mercado. Qualquer coisa que justificasse a existência individual como parte de algo maior e,........
