Carbono a preço do ouro, o que significa para Portugal
Nos próximos meses, uma decisão aparentemente técnica tomada em Bruxelas vai começar a mexer com coisas bem concretas, como o custo de produzir cimento em Sines, o preço da eletricidade para as famílias e a margem de manobra orçamental do Estado português para investir em energia limpa.
A Comissão Europeia confirmou que vai parar os leilões de licenças de emissão de carbono, as EUAs, ligados ao programa REPowerEU assim que o alvo de 20 mil milhões de euros de receita for atingido. Na prática, isto pode significar que cerca de 40 milhões de licenças deixarão de ser leiloadas em 2026, se o preço do carbono se mantiver nos níveis atuais.
É muito mais do que um detalhe técnico, é o início de uma fase de escassez programada no mercado de carbono europeu, com impacto direto no custo de poluir, na competitividade da indústria europeia e no modo como países como Portugal financiam a sua transição energética. E, em pano de fundo, cruza se com outra peça fundamental que entra em funcionamento nesta década, o novo sistema de comércio de emissões para edifícios e transportes, o chamado ETS 2, que vai levar o preço do carbono à fatura de aquecimento e ao depósito dos automóveis.
Vamos por partes.
O que é afinal o REPowerEU e como é financiado
O REPowerEU é o plano que a União Europeia lançou em 2022 para responder à crise energética desencadeada pela guerra na Ucrânia. Os objetivos centrais são simples de enunciar, mas complexos de executar, reduzir rapidamente a dependência do gás, carvão e petróleo russos, acelerar a transição para energias renováveis e melhorar a eficiência energética para consumir menos energia.
Para financiar este esforço, a Comissão mobilizou cerca de 300 mil milhões de euros no conjunto do plano, tendo o Mecanismo de Recuperação e Resiliência, MRR, como coração financeiro. Dentro deste envelope, foi criado um bloco específico de 20 mil milhões de euros em subvenções adicionais para reforçar a transição energética.
Esses 20 mil milhões têm uma particularidade importante, 60 por cento vêm do Fundo de Inovação, que já é alimentado pelas receitas do mercado de carbono, e 40 por cento resultam da venda antecipada de licenças de emissão do EU ETS, licenças essas que, sem o REPowerEU, só seriam leiloadas entre 2027 e 2030. Ou seja, a Europa decidiu trazer para o presente, licenças de carbono do futuro, para transformar esse carbono em dinheiro e esse dinheiro em investimentos em energia limpa, redes elétricas e eficiência energética.
Entre julho de 2023 e agosto de 2026, uma parte das licenças que pertenciam aos Estados Membros e ao Fundo de Inovação foi redirecionada para o MRR com o objetivo explícito de levantar 20 mil milhões de euros para o REPowerEU.
É precisamente aqui que entra o anúncio de janeiro de 2026.
Porque é que Bruxelas vai parar os leilões antes do fim do calendário
A decisão agora confirmada pode ser resumida numa frase, o REPowerEU é um programa com meta em euros, não em toneladas de CO₂. Ao contrário de outros mecanismos do EU ETS, que são definidos em função de um volume fixo de licenças, o REPowerEU foi desenhado para angariar um montante financeiro. O alvo é levantar 20 mil milhões de euros, não vender um número pré-determinado de licenças.
Na prática, isto significa que, se o preço médio da licença de carbono for baixo, é preciso leiloar mais licenças para chegar aos 20 mil milhões, se o preço sobe, é preciso vender menos licenças. Quando o programa foi desenhado, muitos cálculos orbitavam em torno de um preço de referência de cerca de 75 euros por tonelada de CO₂. A realidade foi mais volátil, mas à entrada de 2026 as licenças, as EUAs, voltaram a negociar em patamares elevados, em torno dos 90 euros por tonelada.
Resultado, com preços altos, a Comissão atinge os 20 mil milhões mais depressa do que o calendário original sugeria e, por isso, pode parar os leilões antes de agosto de 2026, retirando do mercado os volumes que estavam previstos para os últimos meses do programa. Estimativas de analistas apontam para menos 40 milhões de licenças leiloadas em 2026 se os preços se mantiverem próximos dos níveis atuais.
Um mercado que aperta de todos os lados em 2026
Seria tentador olhar para esta decisão isoladamente, mas também seria um erro. O fim antecipado dos leilões REPowerEU acontece ao mesmo tempo que entram em cena outros mecanismos que estreitam a oferta de licenças e aumentam a procura regulatória no EU ETS.
1. A Reserva de Estabilidade do Mercado, MSR
A MSR, Market Stability Reserve, é o amortecedor do mercado de carbono. Quando há licenças a mais em circulação, retira parte delas dos leilões e coloca as numa reserva. Quando há escassez extrema, pode devolver licenças ao mercado.
Com base nos dados de 2024, a Comissão decidiu que cerca de 276 milhões de licenças vão ser colocadas na MSR entre setembro de 2025 e agosto de 2026, o que significa 276 milhões de licenças que não vão a leilão nesse período. Ou seja, ao mesmo........
