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A Besta

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06.03.2026

“Os monstros existem, mas são demasiado poucos para serem verdadeiramente perigosos. São mais perigosos os homens comuns prontos a acreditar e a obedecer.” – Primo Levi

Há uma pergunta antiga que a filosofia persegue desde Platão, que a teologia debate desde Agostinho e que a neurociência começa apenas agora a responder com a frieza dos dados: o que somos, afinal? Não o que os nossos preâmbulos constitucionais proclamam, não o que os nossos discursos de paz prometem, mas aquilo que a evidência acumulada em milénios de fogo, ferro e luto parece, irresistivelmente, sugerir.

A guerra não inventa o pior que existe em nós. Apenas levanta o véu. Despoja as sociedades das ficções educadas que constroem para coexistir, e o que permanece, nu e sem desculpa, não é o nobre selvagem de Rousseau, mas uma criatura simultaneamente magnífica e aterradora: o Homo sapiens que compõe sinfonias e organiza genocídios, que codifica os direitos do homem e fabrica câmaras de gás, que envia sondas ao limite do sistema solar e ainda resolve disputas de território com a gramática primitiva da destruição.

Vivemos de novo, hoje, esses momentos em que esta contradição se torna demasiado visível para ser anestesiada. A guerra na Ucrânia, os conflitos no Médio Oriente, as tensões crescentes no Indo-Pacífico, a regressão democrática em vários continentes: não são acidentes da história nem falhas de sistema. São sintomas de algo muito mais antigo, mais persistente e mais difícil de extirpar do que qualquer ideologia ou regime. São o sinal de que a besta, por muito amestrada que se julgue estar, nunca adormeceu.

A arquitetura do predador A neurociência oferece-nos uma perspetiva desconfortável, mas incontornável. O cérebro humano não foi desenhado para a paz perpétua que Kant sonhava. Foi moldado, ao longo de centenas de milhares de anos, para a sobrevivência num ambiente de escassez, de predação e de competição intergrupal. E essa moldagem deixou marcas profundas na sua arquitetura.

A amígdala, essa estrutura em forma de amêndoa encravada no sistema límbico, processa a ameaça em milissegundos, muito antes de o córtex pré-frontal ter sequer iniciado a sua deliberação racional. Daniel Goleman designou este mecanismo de “sequestro da amígdala”: o instinto que captura o controlo antes que a razão chegue à sala. Em contexto de conflito, este sequestro não é uma exceção patológica; é a norma fisiológica. O medo ativa-o. O ódio sustenta-o. A propaganda sabe exatamente como o acender.

Paul MacLean descreveu o “cérebro triúnico”: o réptil ancestral, o mamífero emocional e o humano racional, coabitando sob o mesmo crânio em permanente negociação de poder. O que chamamos de guerra é, em larga medida, a vitória do réptil sobre o filósofo. E há um paradoxo cruel no facto de que a mesma oxitocina, a chamada “hormona do amor”, que cimenta a coesão do grupo, intensifica simultaneamente a desconfiança e a agressividade em relação ao grupo rival. Somos animais de pertença, e a pertença, sem a mediação da razão, transforma-se com uma facilidade perturbadora em tribalismo letal.

O etólogo Konrad Lorenz argumentou que a agressividade intraespecífica, ou seja, a violência entre membros da mesma espécie, é uma pulsão biológica, não um acidente cultural. Frans de Waal, com a elegância empírica que o distingue, foi mais longe: observou em chimpanzés não apenas........

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