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O caso Andrew e o mito da superioridade ética republicana

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09.03.2026

O caso de Andrew Mountbatten-Windsor voltou ciclicamente ao espaço público, sempre acompanhado por uma mistura de escândalo, indignação e julgamento moral. Convém começar pelo essencial: as acusações que o envolveram no contexto do círculo de Jeffrey Epstein são graves e perturbadoras. Ninguém de boa-fé deve desvalorizá-las. Quando figuras públicas se cruzam com redes de abuso, o escrutínio é legítimo e até necessário. A posição social, o título ou a fortuna não devem servir de escudo contra perguntas difíceis.

Mas reconhecer essa gravidade não obriga a aceitar sem reservas o tom moralista que muitas vezes acompanha a discussão. O que se tem visto, sobretudo em certos sectores da opinião pública europeia, é o ressurgimento de uma narrativa curiosa: a da suposta superioridade ética republicana face à instituição monárquica. Como se os vícios humanos fossem monopólio das coroas e não atravessassem, com igual facilidade, palácios presidenciais, parlamentos e gabinetes ministeriais.

Há neste discurso um certo conforto simplificador. O escândalo torna-se prova de tese. Um príncipe acusado transforma-se rapidamente numa alegoria política. De repente, o debate deixa de ser sobre comportamentos individuais e passa a ser sobre sistemas de governo. A lógica é sedutora na sua simplicidade: se um membro da realeza falha, então a própria monarquia falhou. O problema é que esta conclusão exige uma coerência que raramente se aplica quando os protagonistas pertencem ao universo republicano.

Basta olhar para a história recente de várias repúblicas ocidentais para perceber que a virtude institucional não é garantida por eleições. A natureza humana não se altera com a forma de regime. Escândalos de poder, abuso de influência, corrupção ou condutas moralmente reprováveis aparecem em todos os sistemas políticos. A diferença está na forma como cada sociedade decide lidar com eles, não no mito de que um modelo constitucional produz automaticamente cidadãos mais virtuosos.

No caso britânico, aliás, o próprio tratamento dado a Andrew Mountbatten-Windsor mostra uma realidade menos caricatural do que muitos pretendem. O afastamento progressivo da vida pública, a perda de funções e o peso reputacional demonstram que a instituição procurou preservar-se através do distanciamento. Não é um processo perfeito, nem particularmente elegante, mas dificilmente corresponde à caricatura de impunidade absoluta que tantas vezes se repete.

É precisamente por isso que a tentação de transformar cada escândalo real num argumento automático contra a monarquia revela mais fervor ideológico do que preocupação ética. Criticar comportamentos é saudável. Exigir responsabilidade também. Mas usar tragédias humanas e suspeitas graves como munição para uma narrativa política pré-fabricada acaba por empobrecer o debate. No fim, a questão central continua a ser a mesma de sempre: responsabilidade individual. Tudo o resto, muitas vezes, é apenas retórica.

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