Hostilizar a fé é um erro estratégico para a diplomacia
Vivemos tempos de enorme tensão global, marcados pela eclosão de múltiplos conflitos. Nesta conjuntura, os apelos à responsabilidade, ao diálogo e à diplomacia — essenciais para estabelecer tréguas, incentivar a concórdia e negociar a paz — nunca serão desmedidos. Contudo, a verdadeira pacificação exige que as religiões sejam parte integrante deste caminho. O diálogo inter-religioso não é um elemento acessório; é um alicerce instrumental para que os acordos de paz resistam ao teste do tempo.
Por isso mesmo, hostilizar a fé e as instituições religiosas é um erro estratégico e moral. O recente impedimento do acesso de um alto prelado da Santa Sé à Igreja do Santo Sepulcro, para celebrar o Domingo de Ramos, constitui um ato amplamente condenável. Mas mesmo com a exposição que presenciámos no início desta semana, dez dias antes, a cerca de 500 metros do local, a comunidade muçulmana também viu o seu acesso interdito à Mesquita de Al-Aqsa, para celebraram o Eid Al-Fitr e o final de 40 dias de Ramadão. O encerramento da Mesquita— amplamente descrito como algo sem precedentes desde 1967 — constituiu um incompreensível momento de exclusão para os muçulmanos em Jerusalém e em todo o mundo.
Tais restrições seriam inaceitáveis em qualquer latitude, mas revestem-se de uma gravidade ímpar em Jerusalém, o berço sagrado das três grandes religiões abraâmicas: Cristianismo, Islão e Judaísmo. Se existe um lugar no mundo onde a defesa da liberdade religiosa e o livre acesso aos lugares de culto devem ser irredutíveis, é justamente em Jerusalém. Pela história que encerra. Pelo simbolismo que emana. Pelas consequências globais que qualquer rutura ali espoleta.
O estatuto e a acessibilidade dos lugares santos de Jerusalém devem ser escrupulosamente respeitados e protegidos. A liberdade de religião ou de crença — que inclui o direito inalienável de manifestar a fé através do culto, da observância, da prática e do ensino — está consagrada no Direito Internacional, nomeadamente no Artigo 18.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos. E convém não esquecer uma evidência à escala humana: em conjunto, as três comunidades que reverenciam Jerusalém representam mais de metade da humanidade. É por esta razão que os sinais emitidos a partir da Cidade Santa se propagam, inevitavelmente, muito para além dos seus muros.
Em tempos de conflito e de medo, os locais sagrados têm o dever de permanecer como oásis de oração, reflexão e paz. Quando este acesso é bloqueado ou restringido, os danos transcendem o aspeto prático; são feridas morais e comunitárias que aprofundam a desconfiança e a divisão, precisamente quando mais necessitamos de diálogo e convergência. O livre acesso aos lugares santos é, pois, o garante da coexistência pacífica, do respeito mútuo e da dignidade de todas as comunidades. Importa sublinhar que este não é um sentimento isolado: as restrições recentes em Jerusalém, nos Estados Unidos da América e no Reino Unido, com situações numa sinagoga em Michigan e em que ambulâncias de uma comunidade judaica de apoio local foram incendiadas no Norte de Londres, afetaram as três tradições abraâmicas, com muçulmanos, cristãos e judeus a enfrentarem obstáculos inaceitáveis durante as suas principais celebrações religiosas, tal como o seu dia-a-dia.
Num momento em que cada vez mais precisamos de sinais e representações de como a paz pode prosperar, aqui o diálogo e as decisões inter-religiosas que afetam múltiplas comunidades podem ter um papel determinante. A interdição da Igreja do Santo Sepulcro e da Mesquita de Al-Aqsa, subverte o princípio fundamental de que o acesso aos locais sagrados é uma questão inegociável de direitos, dignidade e paz
Encontramo-nos num momento crítico da História, que exige de todos nós uma ação responsável e a defesa intransigente da dignidade de cada comunidade de crentes. As lideranças religiosas são parceiras instrumentais na busca de entendimentos, na união das pessoas e na edificação da paz. Por isso, é imperativo que os Estados e as respetivas diplomacias compreendam o valor destas instituições, fortalecendo os laços com a religião em vez de os enfraquecerem.
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