Do colégio privado à universidade pública: aparente paradoxo
Há um aparente paradoxo no sistema educativo português que, à primeira vista, parece difícil de explicar. No ensino secundário, os rankings são habitualmente dominados pelas escolas privadas, que concentram uma parte significativa das médias mais elevadas e dos alunos com melhores resultados nos exames. No entanto, quando chegamos ao ensino superior, o cenário parece inverter-se: são as universidades públicas que continuam a dominar as preferências dos candidatos, os cursos com notas de entrada mais elevadas, a notoriedade, o reconhecimento social e, em muitos casos, a perceção de qualidade.
A pergunta surge naturalmente: se as escolas privadas apresentam os melhores resultados no secundário, porque é que tantos dos melhores alunos querem depois entrar nas universidades públicas? Talvez a resposta esteja menos numa suposta superioridade de um sector sobre o outro do que na forma como o próprio sistema educativo está organizado. Com efeito, escola e universidade ocupam posições diferentes no percurso dos estudantes, têm missões diferentes e, sobretudo, estão sujeitas a mecanismos de seleção muito diferentes.
Comecemos pela escola. O ensino básico e secundário faz parte de um sistema que é, em grande medida, universal e obrigatório. A escola pública não pode escolher livremente os alunos que recebe. Tem de acolher a população da sua área de influência, independentemente das suas capacidades académicas, da condição económica, da escolaridade dos pais ou do capital cultural das famílias. Na mesma escola podem coexistir alunos excelentes e alunos com grandes dificuldades, filhos de famílias altamente escolarizadas e filhos de famílias com poucos recursos culturais ou económicos. Esta heterogeneidade não é uma deficiência da escola pública. É uma consequência da sua própria função.
Já a escola privada parte de uma posição diferente. Não significa isto que possa simplesmente escolher os “melhores alunos” pelas notas, sobretudo quando falamos de crianças que entram ainda muito novas e cujo futuro desempenho académico é impossível de conhecer. Mas dispõe de uma capacidade muito maior para definir a população escolar que consegue atrair e admitir.
O primeiro filtro é económico: é preciso poder pagar. Mas há outros fatores que podem atuar no mesmo sentido. Famílias com maior escolaridade, maior informação e maior capacidade económica estão também em melhores condições para procurar escolas, comparar alternativas e escolher aquela que consideram mais adequada aos filhos. Dependendo da instituição, podem ainda existir critérios relacionados com vagas disponíveis, percurso anterior, comportamento ou adequação ao projeto educativo. Na verdade, não é necessário afirmar que os colégios selecionam os alunos “pelo nome da família” para reconhecer este efeito. Basta perceber que uma escola que consegue reunir uma população escolar mais homogénea e potencialmente mais favorecida parte de uma posição diferente daquela que é obrigada a acolher a diversidade da sociedade. E esta diferença é fundamental quando, alguns anos mais tarde, comparamos os resultados das duas.
O que medem realmente os rankings?
É aqui que os rankings levantam uma questão que raramente recebe a atenção necessária: quando dizemos que uma escola é melhor porque os seus alunos obtiveram as melhores notas, estamos realmente a medir a qualidade da escola? Estamos, antes de mais, a medir o resultado dos seus alunos. E resultado não é necessariamente sinónimo de valor acrescentado. Um aluno que chega ao secundário com bons hábitos de estudo, acompanhamento familiar, boas condições materiais, acesso a explicações e uma família fortemente orientada para o sucesso académico parte, à partida, com uma probabilidade maior de obter bons resultados. E se esse aluno frequentar uma escola com bons professores, turmas mais pequenas, acompanhamento individual e uma cultura de exigência, poderá obter resultados ainda melhores. Nada disto retira mérito à escola. Mas torna mais difícil saber quanto desse resultado foi produzido pela escola e quanto já vinha incorporado no aluno e no seu contexto familiar.
Uma comparação verdadeiramente rigorosa teria, por isso, de olhar não apenas para o resultado final, mas também para o ponto de partida e para a evolução........
