Fundição de Oeiras: não desperdiçar a oportunidade
Escrevo estas linhas na qualidade de cidadão, habitante e munícipe de Oeiras, concelho onde nasci e vivi praticamente toda a minha vida, com exceção de alguns anos em que estive a estudar e a trabalhar no estrangeiro. Sou também, atualmente, Presidente da Direção da Associação de Moradores de Nova Oeiras. Mas o que aqui trago não é uma posição institucional – é uma convicção pessoal sobre o futuro do território onde cresci.
Nova Oeiras é apresentada, e justamente celebrada, como um dos mais notáveis projetos urbanísticos do país. Concebido nos anos 50 e 60 sob a visão de arquitetos como Cristino da Silva, Falcão e Cunha e do paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, porventura o maior paisagista português do século XX, o bairro nasceu como uma verdadeira “cidade-jardim” inspirada no modernismo da Carta de Atenas: um modelo inovador, humanista, integrado na paisagem, onde o espaço público, a escala humana e a natureza estruturam o território.
Esse reconhecimento não foi apenas simbólico. Em 2002, a Câmara Municipal de Oeiras criou o GALNOV (Gabinete de Apoio Local de Nova Oeiras) para assegurar a salvaguarda da arquitetura e da paisagem do bairro. Em 2012, promoveu a classificação oficial do conjunto, com regulamento próprio publicado em Diário da República, que consolidou essa proteção. Mais recentemente, conforme publicado no site da CMO, o Bairro Residencial de Nova Oeiras foi proposto pela Câmara Municipal de Oeiras para a lista dos sítios candidatos a Património da Humanidade pela UNESCO e integra a lista das obras marcantes do Património Moderno da Península Ibérica desde 2017.
Tudo isto demonstra um consenso institucional e comunitário: Nova Oeiras é património urbanístico de valor nacional.
Ora, a menos de 100 metros deste território classificado, a Câmara Municipal de Oeiras acaba de dar luz verde a um megaempreendimento imobiliário nas antigas instalações da Fundição que é, em tudo, a antítese dos princípios que moldaram Nova Oeiras.
Em primeiro lugar, pela absurda densidade da proposta. Na famosa “raquete” de Nova Oeiras – e sublinho que falo apenas da raquete, excluindo a envolvente de moradias de dois pisos que reforça a baixa densidade do bairro – encontramos cerca de 11 hectares onde se integram seis torres de nove andares, três blocos de três pisos e quatro blocos de um piso, num total aproximado de 300 fogos habitacionais. Já no novo projeto para os terrenos da Fundição, numa área de cerca de 8 hectares, menos 30% de território, prevê-se precisamente o dobro: 600 fogos de habitação. E isto sem contar com uma unidade hoteleira, torre de escritórios, as novas oficinas da CP, e ainda espaços comerciais. Estamos, portanto, perante uma concentração populacional e funcional que rompe com o modelo urbano que caracteriza e deu identidade a Nova Oeiras.
Em segundo lugar, a volumetria. Nova Oeiras já apresenta uma presença vertical expressiva: as torres de nove andares não são edifícios propriamente discretos. Trata-se de volumes que se afirmam como referências no território e que desenham o horizonte daquela zona do concelho. São torres bem concebidas, implantadas e integradas num conjunto urbano coerente, mas são, inequivocamente, marcantes. O projeto da Fundição rebenta com esse equilíbrio ao acrescentar uma massa edificada muito superior: para além de onze blocos com sete, oito ou nove andares (volumes extensos e contínuos, longe da estética das torres existentes), prevê ainda uma torre de 12 pisos e outra de 16 pisos. O resultado é um aumento significativo da presença volumétrica numa área que, recordo, é 30% mais pequena do que a raquete de Nova Oeiras, alterando inevitavelmente a escala e a leitura urbana de todo o território envolvente.
Terceiro, as áreas verdes. Aqui também, a diferença é profunda. Em Nova Oeiras, o verde foi concebido como parte fundamental (e não acessória) do desenho: um bosque contínuo com espécies autóctones, que cumpre a função de separar as habitações dos acessos viários e garantir solo natural contínuo e permeável em toda a envolvente habitacional. Foi concebido para funcionar com baixa manutenção, reduzidas necessidades de rega e elevada capacidade de adaptação ao clima, aproximando-se de um sistema quase auto-regulado. O projeto da Fundição é o seu contrário. Não só apresenta relvados extensos, como grande parte deles se situa na cobertura de um silo automóvel e das oficinas da CP, ou seja, fora de solo natural. As praças pavimentadas com relvado complementar e árvores em alinhamento ao longo dos arruamentos, em caldeira, são contabilizadas como espaço verde, mas são soluções hoje muito questionadas: relvados exigem água e manutenção permanente; jardins sobre lajes não substituem solo natural. Tudo isto junto à Ribeira da Laje, numa zona onde o excesso de água já é um problema recorrente, como se viu recentemente.
Quarto, sobre cultura, quase nada. Embora contemple um edifício de ensino, o projeto não prevê espaços dedicados à criação artística, ateliers, oficinas criativas ou pequenas salas de ensaio. Não contém equipamentos de proximidade que possam gerar efetiva produção cultural e não apenas consumo. Oeiras tem sido célere na inauguração de grandes equipamentos e grandes eventos ditos culturais, mas aqui exigia-se outra escala: espaços acessíveis e permanentes, destinados a quem cria e trabalha nas indústrias criativas todos os dias. Transformar esta “nova centralidade” num polo de produção cultural local teria sido, isso sim, visionário e virado para o futuro.
É difícil imaginar que daqui a 50, 60 ou 70 anos alguém venha a olhar para este novo projeto da Fundição como algo hipoteticamente classificável a património nacional ou património arquitetónico da UNESCO. Ao contrário do que sucedeu com o Bairro Residencial de Nova Oeiras. A única classificação, receio, que venha a merecer será a de oportunidade histórica perdida.
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