23 de fevereiro de 1916, o “anticristo” e a Igreja
No dia 23 de fevereiro de 1916, a Primeira República Portuguesa tomou uma decisão que parecia um gesto de soberania, mas que acabaria por acelerar o seu próprio desgaste: apreendeu 72 navios alemães e austro-húngaros fundeados em portos nacionais.
Não foi um incidente técnico. Foi uma escolha política consciente.
A resposta foi inevitável. A 9 de março de 1916, a Alemanha declarou guerra a Portugal. A República, já fragilizada internamente, passava agora a enfrentar uma guerra externa que exigiria sacrifícios que o regime dificilmente conseguiria sustentar.
Para perceber o verdadeiro significado daquele 23 de fevereiro de 1916, é preciso olhar para o estado da República nesse momento.
Desde a sua implantação em 5 de outubro de 1910, o regime vivera numa instabilidade quase permanente. Em apenas 16 anos, teve 45 governos e 8 Presidentes da República. O poder político existia, mas não tinha continuidade. Governos sucediam-se sem tempo para consolidar autoridade. O regime sobrevivia, mas não estabilizava.
Mas havia uma fratura ainda mais profunda do que a instabilidade política: a fratura com a Igreja Católica.
Essa fratura teve um rosto: Afonso Costa.
Afonso Costa foi o principal arquiteto da política anticlerical da República. A Lei da Separação do Estado e da Igreja de 1911, que impulsionou, rompeu com séculos de ligação entre o poder político e o poder religioso. Bispos foram expulsos, bens confiscados, ordens religiosas dissolvidas, e a Igreja foi reduzida a uma posição juridicamente subordinada ao Estado.
Para os republicanos urbanos – especialmente em Lisboa, Coimbra e Porto – Afonso Costa era um herói. Representava o progresso, a modernidade, a libertação de Portugal de uma estrutura que viam como um obstáculo ao desenvolvimento.
Mas fora desses centros urbanos, no Portugal rural e profundamente católico, a perceção era radicalmente diferente.
Para muitos, Afonso Costa não era um libertador. Era o homem que perseguia a Igreja. Era o homem que rompia com a tradição espiritual do país. Era visto, literalmente, como uma figura hostil à fé. Em muitos meios católicos, foi apelidado de “anticristo”, não como insulto político banal, mas como expressão de uma perceção profunda de rutura moral e espiritual.
O próprio Papa Pio X condenou formalmente a legislação republicana, e as relações diplomáticas entre Portugal e a Santa Sé foram interrompidas em 1913. O regime republicano não estava apenas politicamente isolado em partes do país. Estava espiritualmente desacreditado junto de uma parte significativa da população.
Foi neste contexto, um regime instável, em conflito com a Igreja e agora envolvido numa guerra europeia, que começaram a surgir as consequências da decisão tomada naquele 23 de fevereiro de 1916.
No inicio de 1917, começaram a embarcar no cais de Alcântara, em Lisboa, os primeiros contingentes do Corpo Expedicionário Português. Ao longo dos meses seguintes, cerca de 60 mil portugueses foram enviados para França, para combater nas trincheiras da Flandres.
Eram camponeses, operários, homens arrancados de um país pobre e rural, enviados para um conflito industrial que poucos compreendiam.
Vieram os mortos. Vieram os feridos. Vieram os desaparecidos. Vieram o sofrimento e o desgaste.
A República, que prometera estabilidade e progresso, estava agora associada à guerra, à crise e à rutura religiosa.
Foi precisamente neste momento, no auge desta fragilidade, que surgiu o fenómeno de Fátima.
No dia 13 de maio de 1917, três crianças – Lúcia, Francisco e Jacinta – afirmaram ter visto uma figura luminosa na Cova da Iria. O relato espalhou-se rapidamente. Nos meses seguintes, multidões começaram a deslocar-se ao local.
Este crescimento foi extraordinário. Num país onde o regime tentara reduzir a influência pública da religião, a religião regressava agora pela única via que o Estado não podia controlar: a adesão popular espontânea.
A 13 de outubro de 1917, dezenas de milhares de pessoas reuniram-se em Fátima.
Do ponto de vista estritamente histórico, o que importa não é provar ou negar a natureza sobrenatural do fenómeno. O que importa é compreender o seu impacto político e social.
Fátima surgiu no momento de maior fragilidade da Primeira República.
Surgiu quando o regime estava desacreditado junto de grande parte da população rural.
Surgiu quando o principal símbolo político do regime, Afonso Costa, herói para uns e “anticristo” para outros, representava para muitos portugueses um poder que tentara afastar a Igreja da vida nacional.
Surgiu quando o regime enviava milhares de portugueses para morrer numa guerra distante.
E revelou algo que o regime não conseguira alterar: a persistência profunda da fé na sociedade portuguesa.
A República tinha o poder político. Mas perdera algo mais essencial: a confiança espiritual de grande parte do país.
Menos de uma década depois, em 28 de maio de 1926, a Primeira República terminaria.
Mas o seu enfraquecimento tornara-se visível muito antes.
Tornara-se visível quando, após a decisão tomada naquele 23 de fevereiro de 1916, o regime entrou numa guerra externa, e assistiu, no ano seguinte, ao regresso de uma força interna que nunca conseguira realmente vencer.
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