A educação das massas
A esquerda tem uma explicação para a viragem à direita que tem assolado a Europa (e não só): a culpa é da governação da direita moderada que leva as massas, frustradas nas suas expectativas, a aderir ao discurso populista da extrema-direita. Não tendo formação sociológica ou de politólogo, parece-me, contudo, tal justificação um tanto insuficiente e um tanto apressada. A demografia das votações mostra que a extrema-direita subiu sobretudo nos distritos onde a esquerda era dominante, desde as eleições de 1975. O mesmo se terá passado em França e, inequivocamente, se verifica na Alemanha, onde a AFD é dominante nos estados que correspondiam à antiga RDA, exceto em Berlim. Ao invés, na antiga RFA, a extrema-direita apenas conseguiu semelhante êxito no extremo sudoeste de Baden-Wurttemberg. Idêntico fenómeno se verifica em múltiplos países do antigo bloco de leste que estiveram na órbita da URSS. Porquê?
Em 1980, tive oportunidade de atravessar a defunta cortina de ferro. A Hungria (onde sub-repticiamente se instalava o chamado comunismo goulash, dissidência camuflada) e a Roménia (que fingia desalinhamento face Moscovo, apenas com o fito de aceder à tecnologia ocidental), eram os únicos satélites da URSS que aceitavam viagens através do Interrail. Pude, portanto, conviver com jovens de vários desses países, que, contrariamente ao que já ouvi, falavam inglês suficiente para nos entendermos. Fiquei um pouco surpreendido, não tanto com a impopularidade dos regimes, mas sobretudo com a simpatia que o ‘Ocidente’ merecia entre a maioria dos jovens que comigo trocaram impressões. Recordo que a um jovem alemão de leste, demasiado entusiasmado pelos ‘dourados’ ocidentais, lhe disse que a democracia é exigente: implica participação ativa dos cidadãos. Dá trabalho e traz pendurada uma leve ansiedade, que é inerente à responsabilidade de quem tem de tomar decisões.
Passadas décadas, apercebi-me que tinha mais razão do poderia julgar aquando longínquo diálogo, em 1980, nas margens do plácido lago Balaton. É que Vaclak Havel, após a experiência governativa da República Checa na sequência da Revolução de Veludo, refletia sobre o insuficiente sucesso conseguido com a mudança de regime. Os partidos comunistas, quando no poder, para além de cercearem as manifestações de descontentamento, remetiam a sociedade civil para uma atitude de passividade, assumindo o monopólio estatal da resolução dos vários problemas. Ora, se a liberdade de expressão foi relativamente fácil de restabelecer, já a inércia das populações, ao nível operacional – chamemos-lhe assim – perdurou. Quer dizer: os cidadãos continuaram, comodamente, à espera que o estado encontrasse solução para todos as questões, alheios à delegação parcial de poderes na sociedade civil, que é uma das marcas de água dos regimes democráticos. O vazio criado pelo desmoronar dos partidos comunistas no poder não foi substituído pela democracia representativa, incompatível com a letargia participativa destas populações, vítimas de castração ideológica durante décadas e, nalguns casos, prévia ao estabelecimento de estados satélites soviéticos no pós-guerra. Esta preguiça justifica que a alternativa do agrado desses povos resvale naturalmente para regimes autoritários.
E quanto ao Ocidente, nomeadamente a Portugal? Os partidos que se reivindicam do marxismo-leninismo afastaram-se, há décadas, da........
