O dragão acordou
Napoleão Bonaparte terá dito, ou pelo menos a História atribuiu-lhe a frase, que a China era um gigante adormecido e que, quando despertasse, faria tremer o mundo. Durante décadas, o Ocidente ouviu esta advertência como quem lê uma profecia distante. A China era a fábrica do planeta, o território das cópias baratas, dos brinquedos de plástico e das camisolas produzidas em massa.
Enquanto a Europa e os Estados Unidos olhavam para os contentores que chegavam aos seus portos carregados de produtos de baixo custo, Pequim pensava já em algo muito diferente. Pensava no Pireu, em Gwadar, em Hambantota, em Djibuti e numa rede global de comércio, energia e influência que um dia lhe permitiria transformar a sua força económica em poder geopolítico. Era útil, mas não inspirava respeito. Era necessária, mas não parecia destinada a liderar. Hoje, essa visão tornou-se uma relíquia arqueológica.
O dragão acordou. E não apenas acordou. Organizou-se, comprou portos, financiou infraestruturas e transformou a sua condição de oficina do mundo numa plataforma de poder. O erro ocidental foi olhar para a China como uma economia de imitação quando Pequim já estava a construir uma economia de influência. O Ocidente via produtos baratos. A China via dependências estratégicas.
A rivalidade com os Estados Unidos não é apenas uma disputa entre duas economias. É uma disputa entre dois modelos de poder. A América continua a ter a maior economia nominal do mundo, cerca de 28,8 biliões de dólares em 2024, contra 18,7 biliões da China, e mantém o dólar, Wall Street, Silicon Valley e uma rede militar sem paralelo. Mas a China representa cerca de um terço da produção industrial mundial e domina segmentos decisivos da economia física. Washington conserva a arquitectura financeira do mundo. Pequim conquista a sua infraestrutura material.
Esta distinção é decisiva. Os Estados Unidos construíram uma ordem internacional depois de 1945, com instituições, alianças, bases militares e moeda. A China está a construir uma........
