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Novo MAI, perceções e preconceitos

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27.02.2026

O novo ministro da Administração Interna sempre foi visto como um polícia duro contra o crime e corajoso. Um operacional com espírito de liderança na PJ, onde ingressou em 1995, e subiu como especialista em terrorismo, área que coordenava até assumir a liderança desta polícia, em 1998. Cargo que ocupou até à escolha surpresa de Montenegro que tirou da cartola o nome de Luís Neves. No currículo tem casos célebres como de Tancos ou o do hacker Rui Pinto, suspeito do ciberataque contra Altice e Benfica. E esteve também na ribalta na captura de João Rendeiro, ex-líder do BPP condenado por crimes económicos e foragido à justiça, contando ainda com centenas de casos de raptos resolvidos no currículo.

Focado na área da cibercriminalidade e da corrupção, Luís Neves deu ainda cartas em casos de fraude na obtenção dos subsídios europeus, de financiamento de partidos, passando pelas investigações a crimes de ódio.

Sobre a escolha de Luís Neves para o MAI, os elogios ao trabalho enquanto diretor da PJ são quase unânimes, com algumas críticas e silêncios pelo meio, e até avisos para “muito trabalho” do homem que diz ter sentido um “apelo” para aceitar o cargo num momento “de grande exigência.” Foco redobrado na eficácia e na capacidade de concretização revela a opção de Montenegro no trunfo que apresentou para a pasta que tem a fama de mais triturar ministros. O polícia passa agora a ministro e a expectativa é que à terceira é de vez, no cargo que agora será liderado por um homem do terreno e que tem pela frente vários desafios, sendo um dos principais a reforma da proteção civil.

Ainda diretor da PJ, Luís Neves rejeitou que haja ligação entre “segurança e imigração”, posicionando-se contra narrativas do Chega e contrariando o discurso securitário do Governo. Um sinal de possível inflexão política, numa altura em que urge mão de obra estrangeira para reconstruir o país, e de maior rigor no debate público, ainda que o Executivo de Montenegro assegure a pés juntos que nunca confundiu imigração com criminalidade.

Com uma escolha muito aplaudida, impõe-se uma pergunta: Luís Neves é a pessoa certa para ministro da Administração Interna?

É uma questão de perceções, como diria o agora governante. Há que prezar a separação de poderes em democracia, dirão muitos, com outros tantos a criticar o preconceito. Não está em causa a competência, a seriedade, a experiência e a capacidade de comunicação do sucessor de Maria Lúcia Amaral. Mas a transição de organismos públicos que devem ser independentes para o Governo, ainda que tenha todas as condições para ser um bom ministro.

Luís Neves sempre distinguiu “factos de perceções”, rejeitando estas na ligação entre insegurança e imigração. Sabe, por isso, como disse em tempos, que as perceções têm de ser respeitadas, porque são os sentimentos das pessoas. Por muito que afaste o conflito de interesses, face ao seu passado enquanto líder da PJ, corre o risco de se levantarem dúvidas nos cidadãos sobre a existência de influências políticas neste organismo, que deve ser independente. Cabe ao agora governante contrariar estas perceções, após ter assegurado que aceitou ser MAI sem reservas e que o modelo base da PJ permite que a informação esteja “estanquizada”, a propósito da investigação do caso Spinumviva.

Trocou-se um bom diretor por um ministro. O tempo dirá se é o homem certo no lugar certo. E se as perceções eram, afinal, mero preconceito.


© Jornal Económico