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Jürgen Habermas: pensador incontornável, legado complexo

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23.03.2026

Morreu recentemente, aos 96 anos, Jürgen Habermas. A notícia da sua morte tem tido um eco significativo. E compreende-se porquê. É difícil exagerar a influência que a figura de Habermas assumiu na vida intelectual europeia nos últimos 60 anos.

Dotado de um intelecto prodigioso e de uma capacidade argumentativa com uma espantosa complexidade, pensador capaz de traçar relações rigorosas e originais entre diferentes áreas e problemas, desde a filosofia clássica alemã (num percurso marcado por uma transição entre um período mais próximo de Hegel e Marx e outro mais próximo de Kant) à filosofia da linguagem, ao pragmatismo e à teoria social e política, Habermas é celebrado por muitos como, a nível teórico, o defensor inabalável de uma certa ideia de racionalidade (dialógica e comunicativa) e, a nível político, o intelectual preocupado com os processos de democratização da União Europeia e a possibilidade de uma democracia supranacional.

Por outro lado, e como seria quase inevitável numa obra caracterizada pela enorme abrangência e complexidade e numa vida marcada pela intervenção pública constante, o seu legado é complexo e contestado. A nível teórico, há muito que se lhe apontava o carácter algo idealizado ou irrealista da sua teoria da ação comunicacional ou a forma como a sua ênfase na análise discursiva e procedimental teria levado a uma “domesticação da Teoria Crítica”, constelação de pensamento associada à Escola de Frankfurt, de cuja segunda geração sempre foi considerado figura de proa.

A nível político, as suas posições em anos recentes sobre a invasão russa da Ucrânia e sobre os ataques de Israel em Gaza deram azo a fortes críticas; no primeiro caso, num artigo publicado em maio de 2022, por apresentar uma........

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