Com a narrativa me enganas
Talvez poucos se lembrem mas, há mais de uma década atrás, em 2013, a noção de “narrativa” foi lançada simultaneamente para a ribalta (por José Sócrates, na sequência de uma entrevista dada à RTP) e para a berlinda (pelos detratores de Sócrates). Curiosamente, a forma como Sócrates se apropriou, na altura, dessa noção, remetia-a para o seu carácter potencialmente enganador; e lembro-me do meu divertimento mesclado com alguma perplexidade perante o escárnio com o qual a noção foi recebida.
Afinal, como saberá quem ande pelas lides da hermenêutica, da teoria literária ou dos estudos culturais, a narrativa é uma noção ambígua. Como seres interpretantes que somos, precisamos dela para conferir sentido às coisas e a nós mesmos. Mas também pode ser um agenciamento deturpado dos factos, no qual se pretenda apresentar como realidade aquilo que mais não é que manipulação.
Em 2013 ainda não tínhamos chegado à onda populista que, entretanto, atravessou a Europa e o mundo e a dinâmica de desinformação não era tão intensa. A hiper-requisição da atenção já se fazia sentir on-line, mas a informação não nos chegava tão mastigada quanto acontece hoje, fruto da Inteligência Artificial (IA) generativa.
Ora, a omnipresença da IA generativa e o seu uso cada vez mais frequente têm levantado dúvidas não só sobre a qualidade da informação como sobre os efeitos sobre a forma como pensamos.
A primeira questão prende-se com o facto de o conteúdo gerado por IA ser cada vez mais prevalente na Internet – alguns estudos apontam para cerca de 50% do que é publicado na Internet ser gerado por IA. Isto levanta o problema da recursividade no treino dos modelos: há o risco de a qualidade da informação se perder e de as famosas........
