O verdadeiro efeito do CEO no desempenho das empresas
Nos últimos anos, os CEO têm sido frequentemente elevados ao estatuto de figuras quase míticas: lideram equipas de topo, representam a face pública das organizações e recebem pacotes de remuneração muito superiores aos restantes executivos. A narrativa dominante sugere que, quando uma empresa apresenta resultados excecionais, o mérito é quase sempre atribuído ao seu líder máximo. Mas até que ponto esta associação corresponde à realidade?
Esta reflexão ganhou nova relevância à luz dos resultados históricos recentemente registados pela banca portuguesa. Praticamente todos os principais bancos nacionais apresentaram lucros recorde. Devemos então concluir que estamos perante uma geração extraordinária de líderes bancários? Ou será que, pelo contrário, o facto de todos os grandes bancos reportarem desempenhos excecionais ao mesmo tempo revela que a ação individual do CEO explica apenas uma parte reduzida desses resultados?
Uma análise simples sugere que fatores estruturais desempenharam, de facto, um papel determinante. A margem financeira líquida – a diferença entre juros pagos e cobrados, em percentagem dos ativos – situa‑se em patamares significativamente superiores aos observados na banca europeia. Exemplos recentes ilustram bem esta diferença: estima‑se uma margem de 2,66% na CGD, 2,40% no Santander Portugal e 2,13% no BPI, contrastando com 1,84% no UniCredit Group, 1,76% no CaixaBank, 1,56% no ING Group ou 0,72% no BNP Paribas. Adicionalmente, o peso das comissões nos resultados operacionais dos bancos portugueses é comparável ao de instituições maiores e mais diversificadas, que oferecem serviços de valor acrescentado mais amplo. Tudo isto num contexto de crescimento económico positivo e de condições de política monetária particularmente favoráveis.
Perante estes dados, importa questionar: o que diz a investigação científica sobre o real impacto dos CEO no desempenho empresarial? A literatura internacional oferece uma resposta clara – e mais modesta do que o imaginário popular poderia sugerir.
Um estudo publicado em 2008 no “Strategic Management Journal”, com base numa década de dados de empresas norte‑americanas (excluindo o setor financeiro), concluiu que os CEO podem explicar até 29,2% da variação do lucro. Todavia, quando se analisam os lucros por segmento de negócio, esse impacto cai para apenas 12,7%. Um outro trabalho, publicado no mesmo jornal em 2014 e posteriormente replicado com metodologias analíticas mais sofisticadas em 2016, vai ainda mais longe: em média, o efeito da liderança do CEO na evolução da performance empresarial é praticamente indistinguível da influência da sorte ou do acaso.
Outras investigações sugerem que o impacto dos CEO tende a ser maior em setores pouco regulados, em ambientes com fraca supervisão ou em empresas com mecanismos de governance menos exigentes. E, mesmo nesses casos, há evidência robusta de que a equipa de topo — enquanto coletivo — tem um efeito explicativo no desempenho muito superior ao de qualquer líder individual.
As implicações são evidentes. Os modelos de compensação dos CEO deveriam refletir de forma mais rigorosa a sua contribuição real para os resultados, descontando fatores de natureza cíclica ou estrutural e valorizando mais a performance conjunta da equipa executiva. Conselhos de administração e acionistas têm, por isso, a responsabilidade de garantir que a remuneração premia efetivamente o mérito — e não a sorte, o contexto económico ou condições temporariamente favoráveis.
Num momento em que tantas organizações enfrentam desafios de competitividade, transformação digital e sustentabilidade, talvez seja tempo de recentrar o debate: menos foco em super‑líderes e mais atenção à qualidade das equipas, da estratégia e da governação. É aí que, consistentemente, a investigação indica que reside o verdadeiro motor de desempenho.
