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Estás melhor da tua neve? (Recordando a amiga Milinha Maia)

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04.03.2026

Na casa antiga, o velho soalho soa gemidos. Os encantos e encantamentos do solar velhinho, patriarcal, nascem de palavras como beleza, refúgio, amparo, família. A história do Fundão enriquece-se de sonhos, de afetos... de imaginários. A casa real e a onírica suscitam utopias, quimeras e memórias possíveis.

As paredes tinham bons ouvidos, havia um espaço destinado ao Jardim de Infância. A minha amiga explicava:

 - Uma época, nevou muito no Fundão; caí e magoei uma perna. No dia seguinte, quando entrei no Jardim de Infância, a coxear, perguntou uma mocita: estás melhor da tua neve? - (Neve, pois. Que outro nome para a doença???) -. Noutra altura, uma pequenita mexia numa peça valiosa que enfeitava o solar antigo. Ordenei que a colocasse onde estava. Não obedecia! Levantei a voz e repeti o pedido. Contrariada, arrumou a peça. Comentei:  - Vês que és linda!? Arreliada, respondeu-me: Vês que és bruta?!!!

Escolhi estes contarelos, mas podiam ser muitos outros... A amizade e a ternura guardadas nas memórias do Jardim valem um pequeno mundo.

Não é a história dos livrinhos escolares que encontramos nestes textos. Mas, há informações que permitem reconstruir as relações e as cumplicidades das comunidades e dos grupos.

Na verdade, os temas, os episódios que a Educadora presenteia, revelam uma guardiã excelente da memória.

Que fios foram tecendo estas lembranças?

Falamos de vivências de uma vila, depois qualificada cidade pequena... Integra uma herança cultural que entende a relevância de elites.

A história do Fundão e a do palacete cruzam-se. O edifício apresenta um conjunto de símbolos sacralizados, que as elites política, científica, económica e religiosa, foram preservando como património coletivo. Sem unanimidade? Claro! Todavia, se há críticas, são suaves...Porque o afeto domina... nunca diz mal ... Silencia, cala, omite... Todavia, os pilares de identidade estão definidos: um Chão, uma História partilhada, uma Língua comum... criaram culturas várias.

E os textos mudam, ao longo dos tempos. As personagens são um desafio. Por exemplo, o Cirenéu desempenha um papel essencial. Em tempo de muita fome, é um ladrão célebre; pertence aos heróis românticos, do tipo Zé do Telhado, dos que roubavam aos ricos para dar aos pobres. A família da velha casa protegia-o. 

A minha amiga confessava: 

 - Simpatizavam com ele; por vezes, dormia num abrigo do quintal da nossa casa e a minha avó mandava darem-lhe cobertores, comida e cigarros. Em agradecimento, garantia que a nossa casa nunca seria assaltada.  Um descanso pouco duradouro. Passados anos, o Cirenéu associou-se a outro ladrão, o Tonel; natural de Alpedrinha, além de assaltar, também matava. O Cirenéu avisou. O Tonel queria assaltar a casa e ele não conseguia dissuadi-lo desse propósito. Nessa altura, a minha bisavó mandou pôr um grande pinheiro atrás da porta e com um sino. Certa noite, o sino tocou e a minha família acordou em alvoroço. Mas não aconteceu nada; o pinheiro, cumpriu a sua missão: não deixou que a porta do palacete se abrisse e o barulho do sino chamou gente.

Cirenéu, entretanto, foi preso; esteve detido no Forte do Bugio, mas conseguiu fugir, nadando por baixo de água com uma cesta enfiada na cabeça. 

Alguns anos mais tarde seria morto, em Castelo Novo, por um G.N.R.

São personagens de quem se contam vidas tão difíceis... Por onde andam, agora?


© Jornal do Fundão