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Protejam as nossas crianças

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02.04.2026

Os filhotes de coelho andam livres no prado a espalhar ovos-surpresa para esta Páscoa. Lá dentro, retrocessos e perdas de direitos embrulhados em linguagem técnica e enfeitados pelos laçarotes da "proteção" e da "prudência". Laços que se apertam até fazerem nós cegos nas gargantas de quem perde a voz - e às vezes a vida - ao ver comprimido o seu espaço de existência e a sua existência salva por um comprimido.

Os estudos apontam para uma prevalência da depressão na comunidade transgénero entre duas a quatro vezes superior à da população cisgénero (pessoas cuja identidade de género corresponde ao sexo com que nasceram), com altas taxas de tentativas de suicídio. Não por acaso, não por uma suposta fragilidade biológica, mas por contexto: pessoas trans enfrentam particular discriminação, rejeição familiar, bullying transfóbico, microagressões constantes em contexto social e barreiras acrescidas no acesso à saúde, ao trabalho e à habitação. Na escola, crianças e jovens conscientes de quem são para além do que veem no espelho ou dentro das cuecas (os estudos sugerem que essa identificação começa na infância) são muitas vezes estigmatizados por quem deveria protegê-los, independentemente dos nomes e pronomes que usam ou da aparência com que se apresentam.

Há vários anos que a Organização Mundial da Saúde despatologiza a transexualidade e promove políticas públicas que respeitem a identidade de cada indivíduo, com foco na integração, no acesso a cuidados de saúde e no reconhecimento legal da autodeterminação, encorajando a adoção de procedimentos desburocratizados e menos dependentes de avaliação médica ou psiquiátrica, em linha com as orientações das instituições e organizações que trabalham na área. Pois que Portugal gosta de fazer diferente; e, capitulando aos desígnios da extrema-direita obcecada com pipis, pilinhas e casas de banhos mistas, aprovou três projetos (PSD, CDS e Chega) que revertem a progressista lei de 2018, que estabeleceu o direito à autodeterminação da identidade de género.

Não custa lembrar: pessoas trans não são perigosas e não comportam risco para a segurança pública. Não há maior criminalidade associada a pessoas trans e não há maior taxa de incidentes em balneários com pessoas trans. Quando há, são elas as vítimas, não os agressores. Vários estudos globais apontam, aliás, para uma maior vulnerabilidade dessa comunidade a violência sexual, sobretudo em contextos de maior exclusão. Negá-lo é viver numa efabulação, e para fábulas já temos a do Coelho da Páscoa, que também não existe.


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