Da OCDE à ação: o momento de Portugal é agora
O mais recente relatório da OCDE sobre Portugal é, ao mesmo tempo, um retrato fiel e um teste à nossa ambição coletiva. Não faltam diagnósticos. O que continua a faltar é a capacidade de transformar esse conhecimento em ação consistente.
A OCDE cumpre um papel importante no sistema económico internacional: compara, avalia, expõe fragilidades e aponta caminhos. Funciona como uma consciência técnica dos Estados: independente, informada e exigente. Mas não governa, não decide, não executa.
Essa responsabilidade é exclusivamente nacional.
E é aqui que Portugal continua a revelar um défice crítico: sabemos o que fazer, mas hesitamos em fazê-lo com a escala, a velocidade e a continuidade necessárias.
O relatório insiste em pilares conhecidos: produtividade, qualificações, eficiência do Estado, ambiente regulatório e investimento. Nada disto é novo. O que é novo, ou deveria ser, é o contexto em que recebemos estas recomendações.
Portugal está hoje numa posição singular. Num mundo mais fragmentado, com cadeias de valor a reorganizarem-se e blocos económicos a redefinirem relações, a capacidade de influência externa tornou-se um ativo económico.
É precisamente aqui que a nomeação de Rui Moreira como embaixador junto da OCDE pode representar uma oportunidade rara.
Não apenas pelo conhecimento político e económico que traz, mas pelo perfil: independente, pragmático, com experiência executiva e visão estratégica.
Num organismo onde a influência se constrói, tanto pela qualidade técnica, como pela capacidade de articulação política, Portugal pode deixar de ser apenas um país avaliado e passar a ser um país que influencia.
No entanto, essa oportunidade só terá valor com alinhamento interno.
De pouco serve ter uma voz mais forte na OCDE se, internamente, continuarmos presos a ciclos curtos, reformas incompletas e consensos frágeis. A influência externa não substitui a decisão interna. Amplifica-a, quando ela existe.
Portugal precisa de fazer uma escolha clara: continuar a usar a OCDE como espelho ou começar a usá-la como alavanca.
Como espelho, limita-se a confirmar fragilidades. Como alavanca, pode ajudar a posicionar o país nas redes de decisão, antecipar tendências e influenciar políticas que moldam o crescimento.
Isso exige estratégia e maturidade política. No fim, a questão não é o que a OCDE diz sobre Portugal, é o que Portugal faz com aquilo que a OCDE diz.
Temos hoje mais informação, mais contexto e, potencialmente, mais influência do que nunca. Falta transformar isso em crescimento real.
Essa, como sempre, não é uma tarefa das instituições internacionais. É uma decisão nossa.
