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O preço certo

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28.03.2026

Felizmente que já ultrapassámos a fase discursiva em que ter contas públicas saudáveis era um pecado lesa-pátria. Mesmo a Esquerda sangue quente reconhece, hoje, a importância de o Estado ser detentor de uma robustez orçamental à prova de bala. Isso não invalida, porém, que continuemos a embandeirar em arco sempre que alcançamos marcas olímpicas, certamente luminosas para o currículo dos ministros das Finanças, mas que, na verdade, representam pouco no bolso dos contribuintes, em particular quando os excedentes coincidem com momentos de grande carência e indefinição económicas, como o que vivemos. Lançar foguetes com boas contas públicas é um ato político para ser apreciado em Bruxelas, nada mais.Uma economia frágil como a portuguesa viverá fatalmente no fio da navalha. O Estado dará sempre menos do que aquilo que os contribuintes que o alimentam necessitam e esperam. De resto, o novo pacote de medidas anunciado por Luís Montenegro traduz essa necessidade permanente de equilíbrio entre a realidade e as expectativas. Porque também esta gestão do dinheiro em caixa é um ato político. Hoje, com Montenegro, no passado recente, com António Costa. Acresce que a fatura do apagão ainda está por determinar, e o mesmo sucede com a das tempestades. A prudência pulveriza os estados de alma. E, por essa razão, dificilmente sairemos deste registo paliativo. A torneira dos apoios vai-se abrindo aos poucos, sempre que a boca secar.

Boas contas públicas garantem estabilidade futura. Mas as boas contas públicas não são exercícios contabilísticos vazios: alcançam-se com o esforço coletivo de quem paga impostos e tem a legítima esperança de ver devolvido esse empenhamento. Não tenhamos, todavia, ilusões: o preço a pagar nunca será o certo. Apenas o que for possível ao Estado no exato momento em que for chamado a passar o cheque.


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