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"A Economia do Mar: do vento às ondas de inovação"

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05.03.2026

O Jornal de Notícias iniciou em Viana do Castelo o roteiro de conferências, no âmbito dos 50 anos do Poder Local, sobre a Economia do Mar - o futuro da Nação Azul.

Falar da economia do mar em Viana do Castelo é, no fundo, falar da nossa identidade. Somos um país com quase nove séculos de história profundamente ligada ao oceano. Hoje, porém, o mar já não é apenas memória ou património cultural - é sobretudo futuro. Um futuro feito de inovação, sustentabilidade e crescimento económico.

A economia azul portuguesa não se limita às pescas ou aos portos. Ela abrange o turismo costeiro, a construção naval, a energia offshore, a aquacultura, a biotecnologia, a robótica submarina e muitas outras áreas emergentes. O grande desafio é claro: crescer, mas crescer de forma sustentável.

O primeiro grande princípio da Estratégia Nacional para o Mar é a proteção e valorização do capital natural marinho. Não pode haver economia do mar sem oceano saudável. A conservação da biodiversidade, o combate à poluição e a adaptação às alterações climáticas são condições essenciais para qualquer modelo de crescimento duradouro.

Ao mesmo tempo, a estratégia promove o conhecimento científico e a inovação tecnológica como pilares centrais. Portugal tem vindo a afirmar-se como país de investigação marinha de excelência, e essa capacidade científica será determinante para sustentar as oportunidades económicas até 2030.

Uma das áreas com maior potencial é o turismo marinho e costeiro. A nossa extensa linha de costa, os arquipélagos dos Açores e da Madeira, a qualidade ambiental e a riquíssima biodiversidade marinha oferecem condições únicas na Europa.

Outra área estratégica é a descarbonização do transporte marítimo. O setor marítimo é essencial para o comércio global, mas também contribui para as emissões de gases com efeito de estufa. Portugal tem aqui uma oportunidade clara: modernizar portos, apostar em combustíveis alternativos, desenvolver navios mais eficientes e investir na inovação da construção naval.

A segurança alimentar global será um dos grandes desafios das próximas décadas. A aquacultura offshore, com alguma expressão no Algarve surge como uma resposta estratégica. Mas a economia do mar não termina na produção. A fileira do pescado, desde a pesca à transformação, conservação, inovação alimentar e exportação, pode gerar maior valor acrescentado através da tecnologia, da diferenciação e da sustentabilidade.

Se há área onde o futuro já começou, é nas energias renováveis offshore. A força do vento no Atlântico e o potencial energético das ondas colocam Portugal numa posição privilegiada. O desenvolvimento iniciado da energia eólica offshore

flutuante e de outras tecnologias oceânicas, como a das ondas, pode transformar o país num polo europeu de produção de energia renovável.

Mais do que produzir eletricidade, esta aposta pode criar um verdadeiro ecossistema industrial: engenharia, metalomecânica, cabos submarinos, manutenção especializada e serviços tecnológicos.

O oceano profundo continua largamente inexplorado. É aqui que entram a robótica submarina e Portugal tem vindo a desenvolver competências nesta área e pode posicionar-se como referência internacional em tecnologia marinha avançada. A economia do mar será cada vez mais digital.

Um dos processos mais relevantes em curso é a proposta portuguesa de extensão da plataforma continental oceânica junto das Nações Unidas. Trata-se de uma oportunidade histórica, baseada em ciência e investigação, que pode reforçar ainda mais a posição geoestratégica do país no Atlântico. Mas esta extensão não deve ser vista apenas como ampliação territorial, mas encarada como responsabilidade acrescida: responsabilidade científica, ambiental e estratégica.

A economia do mar é, simultaneamente, tradição e inovação. É memória histórica, mas é sobretudo visão de futuro. Do vento às ondas de inovação, o mar não é apenas o nosso presente, é o nosso maior ativo do futuro.


© Jornal de Notícias