Antes que me esqueça
A roupa suja transborda do cesto numa fuga desesperada, braços e pernas pendurando-se às bordas, quais naufragados na balsa da Medusa. Antes que me esqueça, preciso de pôr a roupa a lavar na máquina.
Antes que me esqueça, tenho de pagar a Segurança Social e o IVA; tenho de comprar novos sapatos, porque um dia o meu avô disse ao meu pai que os sapatos cuidados são a prova do carácter de um homem. Tenho de andar com mais carácter nos pés, antes que me esqueça.
Antes que me esqueça, quero saber quantas pessoas sobreviveram à tragédia da Medusa, e se foram mais do que as peças de roupa que resgatei. Também gostava, antes que me esqueça, de descobrir por que motivo os feixes hertzianos são mais eficazes para transmitir voz e dados entre duas estações com visibilidade directa; antes que me esqueça, tenho de voltar a encantar-me pelos mistérios científicos (toda a ciência é mistério mágico para mim), e investir na História, na Biologia, e, já agora, regressar ao fascínio pelos desastres naturais.
E responder aos e-mails em atraso, encher o depósito do limpa pára-brisas, aspirar as migalhas de bolachas, pães e outras obsessões da minha filha; antes que me esqueça, preciso de telefonar ao amigo cujo desânimo ignorei por causa das migalhas, do pára-brisas e dos e-mails. Antes que me esqueça, tenho de lhe dizer que, para mim, ele vale mais do que o aspirador - mas que é menos útil.
Antes que me esqueça, convém saber das negociações do Código do Trabalho, e telefonar a uma prima que está internada no hospital, onde lida com outro tipo de difíceis negociações. Antes que me esqueça, tenho de lhe dizer que não se preocupe, porque ninguém negoceia tão bem como ela.
Antes que me esqueça, tenho de perguntar à minha mulher se a inscrição da nossa filha para o próximo ano lectivo na creche está confirmada, e vê-las às duas, quando saem de manhã, como partindo para as pequenas jornadas mais saudosas do quotidiano. E esperar que voltem hoje, desejar que voltem sempre, para que todas as jornadas sejam a alegria do regresso.
Mas sobretudo - sem lirismos -, agora que os naufragados da Medusa foram à máquina e estão lavados e a salvo, embora traumatizados pela centrifugação, tenho mas é de os pôr a secar. Sim, antes que me esqueça.
O autor escreve segundo a antiga ortografia
