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A pedra que devemos mover

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05.04.2026

“Ao menos de uma coisa se tem certeza na vida”, ou então “na vida, temos certeza apenas de uma coisa”. Essas frases se ouvem bastante, geralmente não para se referir diretamente à realidade a que fazem alusão, mas sim à instabilidade e à mobilidade das outras coisas todas que compõem o existir do ser humano sobre a terra. Como mãe, sempre achei que o adágio, em qualquer uma de suas versões nuançadas, deveria ser classificado na categoria das hipérboles, quero dizer, não é verdade que só temos certeza de uma coisa na vida.

Quero que meus filhos tenham certeza do meu amor. Eu mesma tenho certeza do amor do meu esposo, dos meus próprios filhos, além de outras confianças que conquistamos na vida, e todas elas, ainda que se queira pôr um grano salis de dúvida em todas essas relações, dependem e descendem do único e mais verdadeiro amor, que é o amor de Deus. No fim das contas, na vida, temos certeza apenas de uma coisa, e não é da morte, porque a vida já venceu a morte. É o que se celebra hoje, ao terceiro dia contando a partir da Grande Sexta-Feira, a que é marcada pelo silêncio e pela dor.

Quando era arrastado pelos guardas ferozes, no meio da madrugada, cujo manto negro deveria lhes ocultar as más ações e a injustiça, e também quando sofreu os primeiros golpes dos algozes em seu costado, e ao cair três vezes na subida do monte, e ao ter seus membros perfurados pelo metal agudo dos cravos, e até o último instante, Jesus certamente não se esquecia do verso do salmo: “Não abandonarás minha alma na morada dos mortos, não permitirás que o teu santo experimente a corrupção” (Sl 16, 10). Esta era “a certeza que ele tinha na vida” – a certeza que ele tinha da vida –, e não a morte, ainda que a morte fosse certa.

E, a dois passos de sua Cruz, já o aguardava o mausoléu, o túmulo novo que nunca fora antes utilizado. Os túmulos dos judeus ficavam, habitualmente, dentro de uns quintais cercados. E aquela região dos jardins, às margens da cidade de Jerusalém, continha muitos desses terrenos. Os hebreus daquela época cavavam muito na própria rocha, mais do que construíam alguma coisa, e assim ganhavam espaço e conseguiam produzir edificações mais duráveis – o túmulo deveria guardar a ossada do ser humano até a ressurreição do último dia, segundo a crença de parte do povo de Israel (na Bíblia se leem as discussões com os saduceus, que descriam dessa doutrina) que foi herdada pela Igreja. Assim, é justo dizer que suas necrópoles resistiram mais à ação do tempo do que suas próprias cidades, morada do tempo, habitação da vida que – temos certeza – há de passar.

No fim das contas, na vida, temos certeza apenas de uma coisa, e não é da morte, porque a vida já venceu a morte. É o que se celebra hoje

No fim das contas, na vida, temos certeza apenas de uma coisa, e não é da morte, porque a vida já venceu a morte. É o que se celebra hoje

Sabemos, por informação da literatura histórica e daqueles que conhecem de perto a Terra Santa, que na época de Jesus o zelo pela construção desses túmulos........

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