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Ciência e moral no debate entre Habermas e Ratzinger

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28.03.2026

Quando o filósofo Jürgen Habermas faleceu, em 14 de março, vários obituários registraram um episódio que poderíamos considerar um marco na vida intelectual alemã deste século: seu debate de janeiro de 2004 com o então cardeal Joseph Ratzinger, à época prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e que depois seria eleito papa com o nome de Bento XVI. Os mais novos talvez não se lembrem, mas houve um tempo em que duas pessoas com posições antagônicas eram capazes de se sentar e discutir um tema sem interromper o outro o tempo todo levantando a voz, nem se preocupando com frases de efeito para garantir o corte no Instagram.

Eles se encontraram em Munique, na Academia Católica da Baviera, a convite de seu diretor, Florian Schuller – que depois organizaria as intervenções dos dois pensadores, publicadas (inclusive no Brasil) sob o título Dialética da Secularização. É um livrinho curtinho, que você vai demorar apenas umas poucas horas para ler – e muitos dias para absorver. O tema do debate eram as “bases morais pré-políticas de um Estado liberal”, ou seja, não era e nem foi uma conversa sobre ciência. Mas, se estamos mencionando esse debate no Tubo, é porque a ciência acabou fazendo uma breve participação especial na intervenção do cardeal Ratzinger, e de uma forma que ressoa até hoje.

Logo no início de sua fala, Ratzinger fala do desmantelamento das certezas éticas em que as sociedades (especialmente a ocidental) se fundavam, e que permaneciam sem resposta perguntas como “o que é o bem?” e “por que esse bem deve ser praticado, mesmo em prejuízo próprio?”. O cardeal cita brevemente a ideia de um “ethos mundial”, mas não se detém sobre ela; interessa-nos mais o que ele diz a seguir, que “me parece óbvio que a ciência como tal não é capaz de produzir um ethos, ou seja, uma consciência ética renovada não surgirá como fruto de debates científicos” (uma ideia, aliás, com que Habermas concordava). O desenvolvimento científico pode ter desmontado certezas, mas é incapaz de construir outras novas – ao menos não desse tipo de certezas, que respondam àquelas duas perguntas.

“A ciência como tal não é capaz de produzir um ethos, ou seja, uma consciência ética renovada não surgirá como fruto de debates científicos.”Cardeal Joseph Ratzinger, em debate de 2004 com Jürgen Habermas

“A ciência como tal não é capaz de produzir um ethos, ou seja, uma consciência ética renovada não surgirá como fruto de debates científicos.”

Com essa pequena frase – que nem está no centro da........

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